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domingo, 6 de fevereiro de 2011

O VELHO DISCURSO DO BOY NA BOCA DO RAP*




Eu acho que o rap feito no Brasil ele tem muita identidade tem muita coisa legal, mas muita gente se aproveitou desse tipo de rap no Brasil e parou de criar, foi mais fácil copiar grandes artistas de rap, não só se inspirar, mas copiar, e disso começaram a criar o que? Muita musica com o mesmo assunto, mesmo tema, isso cansou um pouco.  
 
              As palavras acima são de uma respeitadíssima e histórica figura do Hip Hop nacional, é do “velho” Humberto Martins da dupla Thaide e Dj Hum que muito fizeram pelo Hip Hop brasileiro, homens pelo qual guardo grande apreço, apesar discordar do referido discurso, discurso esse que vem a cada dia se proliferando entre  protagonistas e adeptos da cultura ou  Movimento Hip Hop. 
              Quero iniciar dizendo que esse discurso de que o rap está repetitivo e que, portanto, seria necessário inovar nos temas, nas letras, musicalidade e tal, não é tão novo assim, ele é tão antigo quanto a preocupação da burguesia brasileira com a ameaça política que o Hip Hop passou a representar desde início da década de 1990. Quem é das antigas deve lembrar a música “Poder da Rima” do disco Bem Vindos ao Inferno do grupo Sistema Negro. Nessa canção de 1994 já constava uma resposta a esse tipo de acusação contra as letras do rap :

Música de preto coisa de desesperado/ ouço um idiota numa estação de rádio/ querendo sim acabar com nossa música/ por não ser agradável como o samba/ 

                Em uma entrevista concedida ao YO Rap! nesse mesmo período, Turbo, na época vocalista do grupo Comando DMC, rebatia esse tipo de acusação lembrando que ninguém criticava os pagodeiros por falar só de amor, mas faziam isso com o rap por ser música de protesto (infelizmente não encontrei a entrevista no youtube). 
               Donos de gravadoras e mesmo alguns MC,s reproduziam constantemente esse mesmo discurso, especialmente nas entrevistas concedidas ao YO Rap! Era preciso mudar a cara do Hip Hop, diziam. A questão é que a década de 1990 não foi uma década qualquer. Era praticamente impossível mudar a “cara” do Hip Hop naquele período com tanta luta acontecendo nas ruas, massacres de detento, sem-terra, menores, etc. Nem o presidente Collor de Melo e nem os caras pintadas escaparam das ácidas criticas do Hip Hop. Para constatar isso basta escutar a belíssima canção “Assassinato sem Morte” de GOG. 
                     Na contramão dos discursos dos “bem intencionados”, os discos lançados eram cada vez mais “agressivos”, o que não significava necessariamente “sem musicalidade”. Racionais MC’s, Cambio Negro, Comando DM, Visão de Rua, Sistema Negro, GOG, DMN e tantos outros grupos preferiram falar das dificuldades do seu povo, de ser preto, de ser pobre, de ser favelado, pois nada disso é moda, são condições, ou seja, moda e condições sócio-raciais são duas coisas bastante distintas. 
                Pelo menos para mim três canções sintetizam bem o que foi a primeira metade da década de 1990: Sub-Raça (Cambio Negro) Homem na Estrada (Racionais MC’s) e Assassinos Sociais (GOG). É verdade que havia dezenas nessa mesma linha, uma resposta extraordinária aos “bem intencionados” que queriam tomar o leme e as velas políticas do nosso barco. O nocaute final a esse discurso na década de 1990 veio com o CD “Sobrevivendo no Inferno” do Racionais Mcs, lançado em 1997.  O tom agressivo e as denúncias contundentes das letras calaram parcialmente os “bem intencionados” da boa musicalidade. 
               Na seqüência foram sendo lançados dezenas de discos com esse mesmo propósito e por incrível que pareça a notoriedade que o Hip Hop nacional ganhou nesse período não foi com canções melódicas como desejavam os boy’s (donos das grandes gravadoras e emissoras de rádio e televisão) foi com canções de protestos tais como necessitavam milhões de favelados sem vozes nesse país. 
              Um exemplo disso são todos os CD,s do Facção Central lançados nos últimos 10 anos. Vai dizer que Facção Central é chato e monótono para favelado que tem na ponta da língua e no fundo coração as dezenas de canções desse grupo? Aconselho a não fazer isso, pois há uma identidade intrínseca entre a realidade denunciada e a vivida. Para playboy que escuta Facção como se estivesse assistindo um filme talvez esse discurso seja mais coerente, mas para favelado que está no “filme” é claro que NÃO. 
                      Contudo, vinte anos depois o velho discurso volta à tona. A diferença agora é que o discurso do boy encontrou ressonância e porta-vozes dentro do próprio Hip Hop, especialmente entre os MC’s. Há uma auto-acusação generalizada de que o rap está chato, sem musicalidade. Até a “cara amarrada” de cantor de rap e de se público é motivo de chacota. Imagine o grupo “A Família” cantando o rap “Castelo de Madeira” com um baita sorriso no rosto? Até parece que a culpa de favelado andar de “cara feia” é do rap e não das condições objetivas vividas cotidianamente pelos favelados, que as canções de rap apenas interpretam. Ou será que favelado desempregado que escuta pagode e axé music  vive sorrindo com as paredes?
                     O Hip Hop, assim como o jazz, nasceu de uma necessidade objetiva de afro-descendentes que queriam se expressar sobre suas condições de vida e não tinha outros meios para fazê-lo ou eram impedidos, aliás, a maioria das músicas de preto surgiu assim. O formato do rap é uma resposta consciente ao formato da grande mídia, da sociedade, ou seja, é uma resposta consciente a exclusão sócio-racial existente no capitalismo em qualquer parte do mundo, por isso o rap é a música internacional do protesto, apesar dos “comédias” . 
                   Se falar de preto ficou chato no rap, por que então não falar pra polícia que esse negócio de espancar e matar preto está ficando pra lá de chato? Que tal então pedir para apontar suas armas para os “branquinhos dos shoppings”? Quem sabe assim não teríamos novos temas pra abordar em nossas canções? A questão é que as letras de rap são tão perenes quanto às águas sujas do capitalismo. 
                  Esse falso discurso esconde os interesses de alguns grupos de rap e de empresários da música e da moda. Negar o passado como se fosse um tempo morto sem nenhuma relação com o presente é a nova estratégia de quem quer aderir ao “velho discurso”. FHC fez isso quando assumiu a presidência ao falar “esqueçam tudo o que eu já escrevi”, Lula falava isso quase todo dia, agora é vez dos rapper’s brasileiros. Dizer que a música é mal feita é só um pretexto. MV Bill, por exemplo, não está cantando rap no Malhação, mas atuando como ator em um programa que tem um conteúdo político pior do que as músicas do “Sambabacas” do programa “Casseta e Planeta”.  Chato é o “Malhação” e não as canções feitas com tanto sacrifício e limitações financeiras por quem vive na periferia. 
                      O Racionais MC’s aderiu a Nike, uma empresa multinacional que escraviza trabalhadores e explora trabalho infantil e agora diz que quer fazer diferente para sair da mesmice. Trabalhar como escravo numa empresa como a Nike que fatura US$ 13,7 bilhões por ano, isso sim deve ser monótono e revoltante. 
                    Entendo que o rap precisa sim mudar o discurso, deve ser mais radicalizado, e não mais “agradável”, a questão da melodia vai da subjetividade musical de cada um, pois quem sou eu pra falar? Afinal de contas o aprimoramento não é uma necessidade natural que todo ser humano tem?
                     Como educador percebo a cada dia que passa a importância que tem o Hip Hop para a juventude favelada. O Hip Hop ousou tratar de temáticas que a maioria dos professores ainda encara como tabu. O rap, infelizmente, ainda é o “livro musicalizado” de um país de analfabetos funcionais. 
                   É inadmissível que uma geração de “moleques” com idades entre 15 e 22 anos tenha corajosamente assumido uma responsabilidade política que muitos dos nossos pais não tiveram condições de assumir, isso numa década considerada politicamente “perdida”, e agora batendo a casa dos 40 anos, sobre falsos argumentos, tentam se livrar da “trouxa” política que vinham carregando para ser degustado com mais apreço por aqueles que há 20 anos eram considerados nossos inimigos mortais, é lamentável!  
                Quem é a Nike? Quem é a Globo? A quem serve o governo de Dilma? Por que ocuparam o Complexo do Alemão numa estratégia combinada desde 2008 entre o governo brasileiro e a embaixada norte-americana? Segundo dados do MTST, cerca de quatro milhões de pessoas serão remanejados das áreas próximas aos locais onde serão realizados os jogos da Copa de 2014 e das olimpíadas de 2016. Não é só por isso, mas por isso também que querem controlar as vozes daqueles que aparecem como um grande incômodo para os interesses espúrios que se escondem por trás desses jogos, bem como para a crise do capital iniciada em 2008 e que já está retornando com muito mais fôlego, a exemplo do que vem ocorrendo em quase toda a Europa, Tunísia e Egito. 
             Quem quiser mudar de discurso que mude, quem quiser se lambuzar com as migalhas desses malditos senhores, que assim faça. Só não é correto transformar a favela em vítima do rap e o boy em seu juiz de plantão. 

* Hertz Dias, Militante do Movimento Hip Hop do Maranhão “Quilombo Urbano” e vocalista do grupo Gíria Vermelha

6 comentários:

julio disse...

falou tudo amigo!Não há nada a completar, perfeito!Abraços
Julio Cesar - RJ

Anderson Benelli disse...

Muito bom, é isso mesmo. A militância continua...

INSURREIÇÃO AFRO-NORDESTINA disse...

quando os pretos realmente endender o papel que o hio hop tem neste mundão, vão deixar de se preocupar com quem agradar em suas letras, hoje o rap que agradar a Deus e o Diado, numa epoca que precisamos ser o que somos, não o os boy querem que a gente seja, fico muito feliz de fazer parte deste história, de muita correria e disposição, e de ter ajudado a construir um pouco do nosso orgulho preto, valeu preto Hertz pelas ideias que os boy treme em ler.
Sonianke-Dialeto Preto.

B-Boy Thiago disse...

"A classe é dividida pelos instrumentos do capitalismo. Reunir os trabalhadores de todas as raças, sexos, opções sexuais, religiões para combater as opressões que dividem a classe, só pode servir para uni-los numa perspectiva revolucionária. As lutas contra o machismo e o racismo, especificamente, são estratégicas para construir o socialismo no Brasil, pois os negros e as mulheres são os setores mais explorados, que mais se revoltarão contra o capitalismo num momento de crise revolucionária. Mais do que isso, é preciso que a ferramenta para liderar os trabalhadores para essa conquista, o Partido Revolucionário, também seja composto de maioria de negros e mulheres, não de maneira artificial, mas porque isso significa que esse partido faz trabalho político e está presente nos setores mais explorados da nossa classe. Mais do que dizer que não existe socialismo sem o fim do racismo, é preciso dizer que não existe fim do racismo sem socialismo!" Coletivo Lenin

ÉrriJota disse...

muito foda o texto malucada! parabens!

Resistir e Lutar sempre!

Douglas disse...
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