sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Posse Comuna de Palmares Realiza Atividade de Hip Hop no João Paulo


Figurando entre uma das áreas mais violenta de São Luís, a Rua da Felicidade no bairro João Paulo foi agraciada neste sábado (29/01/2012) com uma importantíssima tarde cultural regada a muita ideia promovida pelos integrantes da Posse Comunas de Palmares, uma das mais antigas do Quilombo Urbano.  O clima era muito tenso, pois praticamente todo fim de semana é registrada algum tipo de ocorrência policial nessa rua que tem aproximadamente meio quilometro.   Enquanto os Dj´s  Ras Mauro e Naif tocavam uma seqüência de rap e reggae, Espectro grafitava o descaso governo com a juventude favelada. Preto Roob, vocalista do Raio X Nordeste, coordenava e explicava à comunidade a importância de uma atividade como aquela e exigia “o fim da guerra interna” entre a juventude do bairro. Nas proximidades dali uma partida de “queimado” era assistida por uma multidão que fazia das calçadas arquibancadas.
               Mais ou menos por volta das 18h iniciava as apresentações. Mano Moreles, rapper deficiente visual, foi o primeiro a se apresentar. Com ótimas letras, levadas hipnotizadoras, Moreles mostrou por cerca de meia hora por que é uma das maiores revelações do Hip Hop maranhense dos últimos anos. Além do talento cultural, Mano Moreles fazia discursos que dava a impressão de ser um antigo militante do Quilombo Urbano, mas ele está conosco há apenas três meses e possui só 19 anos de idade.
                 Logo depois foi a vez de Hertz do Gíria Vermelha se apresentar, mas antes reservou alguns minutos para denunciar a ação criminosa que o governo Alckmin praticou contra os moradores de Pinheirinhos em São José dos Campos, São Paulo. Ao término do seu inflamado discurso entrou a base da música O Imortal, uma das mais escutadas do bairro.  A agitação da rua foi substituída por silêncio e atenção. Mesmo as duas “rodinhas de fumaça” que se formou próximo à atividade foi desfeita assim que as apresentações iniciaram; uma demonstração do respeito que o Quilombo Urbano nutre entre os favelados sejam de qual quebrada for.
                Ao final, Preta Lú relatou em tom de alívio e satisfação “Fazia muito tempo que aqui não tinha um sábado tão tranquilo”. A proposta da Posse Comuna de Palmares é realizar atividades pelo menos uma vez por mês no bairro do João Paulo.  

Hertz Dias é professor de História, vocalista do grupo de rap Gíria Vermelha do Quilombo Urbano e militante da CSP Conlutas.

Uma Criança Chamada Pinheirinho, Um Monstro Chamado Alckmin.


           Pinheirinho é uma criança negra de oito anos de idade filha de trabalhadores sem-tetos que residem em uma ocupação localizada na região de São José dos Campos, São Paulo.  Segundo as crendices populares, Pinheirinho é protegido por deuses e santos proletários. Alckmin, por sua vez, é um monstro, um monstro protegidos por demônios de toga, um monstro demolidor de sonhos proletários, um monstro criado em laboratório para proteger os castelos de platina.
            Cada vez que uma ocupação é demolida, que um morro é ocupado ou que um pobre é assassinado pela polícia, o monstro Alckmin se agiganta, é assim que ele sobrevive. No entanto, para continuar mantendo seu status de demolidor de sonhos proletários, a cúpula do inferno de platina deu um ultimato ao monstro Alckmin: ele teria que por fim a vida do aguerrido Pinheirinho.
            Admiradores confessos de Pilatos, os playboys e as dondocas dos castelos de platinas das redondezas da ocupação temem que Pinheirinho seja uma espécie menino Jesus negro protegido por magos favelados, uma ameaça em potencial aos especuladores imobiliários da região. O monstro Alckmin, obediente a cúpula do inferno de platina, não pensou duas vezes e saiu à captura de sua preza, era madrugada de domingo. Porém, antes de deixar seus aposentos sombrios, Alckmin ainda releu algumas passagens do livro Mein Kampf (Minha Luta) de Adolf Hitler. Nesse dia Pinheirinho quase não dormiu, seus sonhos eram lampejos de maus pressentimentos. Já o monstro Alckmin caminhava completamente tomado pelo ódio de classe, embriagado pelo racismo, vomitando calúnias e protegido pela grande imprensa que pactuou com a cúpula em distorcer tudo que viesse a comprometer a ação maligna de Alckmin.
               Os estragos foram indescritíveis. Os pais, parentes e amigos de Pinheirinho resistiram, tentaram impedir que o pequeno garoto fosse sequestrado, mas o monstro foi impiedoso e deixou pelo caminho um rastro de destruição, sangue, sofrimento e mortes. A mídia recortou os fatos para esconder a tragédia, as direções dos hospitais silenciaram sobre o número de mortos e feridos, enquanto Alckmin lavava suas mãos sujas de sangue em uma bacia prateada.
             Desolados, os deuses proletários se reuniram, mas nada puderam fazer. São Cosme e São Damião esgotaram suas energias na tentativa de proteger Pinheirinhos. Sem alternativa celestial, os deuses proletários chegaram à conclusão que somente os seres humanos, os simples mortais de carne e osso pertencente à classe trabalhadora poderiam resgatar Pinheirinho das garras do maldito monstro Alckmin.
             Resolveram mandar um sinal que brilhou no céu de todos os estados brasileiros e de muitas regiões do mundo dizendo Pinheirinho ainda está vivo!.  Os deuses, quem diria, aprenderam e agora tentam ensinar que a força mais poderosa da humanidade provém da unidade e da solidariedade daqueles que produzem as riquezas que sustenta esse mundo, a classe trabalhadora. Mas, contudo, continuarão rezando para que a graça dos pobres prevaleça ante a desgraça emana dos ricos.
              Observando isso, o monstro Alckmin e toda a cúpula do inferno de platina ficaram preocupados, pois descobriram também que a medida que o povo pobre de todo o Brasil se mobilizar a liberdade de Pinheirinho se tornará uma realidade e milhares de outros pinheirinhos poderão surgir país a fora.
  Na real, o desfecho dessa saga depende da ação concreta e imediata de cada um de nós.

VIDA LONGA A PINHEIRINHO, CADÉIA PARA ALCKMIN!



 Hertz Dias é professor de História, vocalista do grupo de rap Gíria Vermelha do Quilombo Urbano e militante da CSP Conlutas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Encontro da Frente de Resistência Urbana



                                
                                     Momento de troca de idéia

      
  Foi realizada em São Paulo, nos dias 06 e 07 de dezembro de 2011, a reunião da Frente Nacional dos Movimentos Populares - Resistência Urbana. Com representantes de oito estados mais o Distrito Federal, o encontro teve além das pautas debatidas internamente entre os presentes como um dos destaques a continuação de umas da suas principais campanhas do movimento que é “Minha Casa, Minha Luta!” que traz com reivindicações:
1-Uma Política Nacional de Desapropriação dos imóveis urbanos ociosos, que faça com que milhares de terrenos vazios tenham alguma função social e se transformem em moradias populares, escolas, hospitais, creches e parques públicos garantindo que tenham utilidade para a população.
2-Combate a especulação imobiliária, com IPTU progressivo e medidas de sanção, garantindo que os grandes donos de terras paguem os impostos de suas áreas sob pena, inclusive, de perderem estas terras para o Estado.
3-Direcionar os Programas Habitacionais para as famílias com renda mensal até três salários mínimos, garantindo subsídio integral.
4-Destinação da maior parte dos recursos do Programa Minha Casa, Minha Vida para direta das entidades populares, sem participação de empreiteiras, garantindo que as de habitação beneficiem o povo e não o bolso dos empreiteiros.
5-Garantia de não remoção das habitações das populações atingidas pelas intervenções urbanas, com prioridade de política de política de imóveis vazios e/ou subutilizados.

                        
                                  Assembléia na concentração do Ato
                                  Desapropriação: Trabalho, Moradia e Terra.

Somando-se a programação do Encontro da Frente de Resistência Urbana, foi realizado no dia 08 de dezembro de 2011, um Ato com o tema Desapropriação: Trabalho, Moradia e Terra, e o Lançamento da Campanha “Sem Teto com Vida”.
                         
                         
             A Marcha se Formando com a comissão linha de frente

No dia 08 de dezembro, com o lema: É hora de desapropriar por terra, trabalho e moradia! É hora de ocupar as terras, campo e terrenos nas cidades, as fábricas fechadas e falidas, a Avenida Paulista foi tomada por mais de duas mil e quinhentas pessoas marchando na realização do Ato Desapropriação: Trabalho, Terra e Moradia levando ao Escritório da Presidência da República em São Paulo as seguintes pautas de reivindicações:
1-Desapropriação já da fábrica ocupada Flaskô.
2-Desapropriação já pelas moradias dos acampamentos Dandara e Zumbi.
3-Desapropriação já por reforma agrária da área do Sítio Boa Vista em Americana/SP.
4-Não a Criminalização dos Movimentos Sociais.
                       



Na mesma data, no dia 08 de dezembro às 13 horas, foi realizada uma outra marcha, desta vez da Avenida  Paulista até a Assembléia Legislativa de São Paulo, onde foi realizado o Lançamento da Campanha “Sem Teto com Vida” em São Paulo em Audiência Pública: Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais.
                               
                  Marcha a caminho da Assembléia Legislativa de SP
    
      O Lançamento da Campanha “Sem Teto com Vida” em São Paulo aconteceu no dia 08 de dezembro com um debate ocorrido entre movimentos populares, central sindical, partidos de esquerda e deputados, realizado em Audiência Pública abordando o tema: Contra a Criminalização dos Movimentos Sociais que tem como objetivo denunciar os recentes casos de atentados sofridos por integrantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), além de intensificar a campanha contra a criminalização dos movimentos sociais. Outro ponto importante debatido na audiência foi a dificuldade de se conseguir o reforço da segurança desses companheiros. “As audiências públicas são importantes, porém temos que garantir efetivamente a segurança para esses companheiros que ainda estão expostos a novos atentados”, denunciou Guilherme Simões membro da Coordenação Nacional do MTST. Mais uma vez a luta se fez necessária e o Hip Hop esteve presente em mais ação revolucionária para a derrubada do capitalismo e construção do socialismo, tendo uma importante participação de integrantes de grupo de graffiti e grupo de rap no decorrer da programação deste encontro com falas, grafite, rap.


                          

‘’Gegê’’- Militante do Mov. Org. de Hip Hop Quilombo Urbano, Membro da Executiva CSP Conlutas, Militante do MH2M Quilombo Brasil...


I Mostra de Hip Hop na comunidade da Mata

Sábado, dia 12 de dezembro de 2011, a Posse Luiza Mahin filiada ao Mov. Org. de Hip Hop Quilombo Urbano realizou sua primeira atividade regada a muito rap e break. A atividade aconteceu na Mata, localizada no município de São José de Ribamar. Uum grupo de b. boys e b. girls mandaram ver no Break e ainda teve a apresentação dos grupos de Rap do Quilombo Urbano: Renegados do Sistema e QI Engatilhado soltando muita informação nas suas letras socialistas e revolucionárias e teve ainda o sorteio de um cd coletânea de rap do Quilombo Urbano 20 anos. E assim, construindo posses e organizando atividades, fazemos o que diz nossos parceiros do Dialeto Preto: “já escolhi o meu quilombo, não da arte pela arte é só preto organizado, preparado pro combate, lutando que nem Zumbi, honrando Sabotagem (o rap é compromisso não é viagem)...”

           
           
  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Marcha da Periferia acontece em plena crise do governo de Roseana Sarney

HERTZ DIAS, DE SÃO LUÍS (MA)


• Greve dos policiais militares e bombeiros, com adesão da Tropa de Choque. Greve dos delegados da polícia civil, ocupação da Assembléia Legislativa, boatos de arrastão pelo centro de São Luís, ameaça de greve nos transportes coletivos em função insegurança, uma guarnição da Força Nacional sendo desarmada por um ataque surpresa de militares grevistas na cidade Imperatriz. Denúncias do caos na saúde pública, aumento da resistência quilombola na baixada maranhense. Vargem Grande, município maranhense, figurando como o mais pobre do Brasil segundo o último censo do IBGE. Foi nesse clima de crise institucional e completa desmoralização do governo de Roseana Sarney que aconteceu a VI Marcha da Periferia em São Luís no dia 25 de novembro, como parte da programação da Semana da Consciência Negra.

Trazendo como tema “Contra a Criminalização da Pobreza”, cerca de 300 pessoas caminharam pelo centro comercial de São Luís em direção aos Palácios dos governos municipal e estadual. Se não fosse pelo boato propagandeado pela mídia sarneísta de que estava ocorrendo um arrastão no centro da cidade e pela ameaça de paralisação dos transportes coletivos, o número de participantes seria muito superior.

Na concentração, as falas se alternavam com as canções de protesto de rap e um grafite que era realizado em frente à Biblioteca Pública Benedito Leite, que está há anos sem funcionar. Uma frase grafitada dizia “Fora Sarney”. Enquanto isso uma urna colhia os votos do Plebiscito dos 10% do PIB para a Educação Pública Já!


Além de uma coluna de educação, foi formada uma coluna de mulheres como parte do dia latino-americano e caribenho contra a violência à mulher. A juventude das periferias de São Luís marcou presença em peso e aproveitou para denunciar a situação dos seus respectivos bairros. Dezenas de pessoas escutavam atenciosamente as intervenções, enquanto outras pessoas confeccionavam cartazes em plena praça pública. Muitos transeuntes resolveram se incorporar à marcha.
Marcaram presença na VI Marcha da Periferia militantes da CSP-Conlutas, Movimento Negro Quilombo Raça e Classe, dos Movimentos de Hip Hop: Quilombo Urbano-MA, Cangaço Urbano-CE, Ministério das Favelas- Caxias-Ma, Família Hip Hop do Coroadinho, Grupo de Mulheres Preta Anastácia, Movimento Hip Hop Militantes Quilombo Brasil;, Movimento Mulheres em Luta, Aconnir, APRUMA, ANDES, SINASEFE, Movimento de Resistência dos Professores (MRP), Setorial de Educação da CSP-Conlutas, Assembléia Nacional dos Estudantes Livres (ANEL), PSTU, Comissão Pastoral da Terra, Sindicato dos Bancários, Sintrajufe-MA, além de skatistas e hippes. A marcha encerrou em frente ao palácio dos Leões.

As intervenções, sobretudo das mulheres, foram empolgantes e emocionantes e apontavam para necessidade de se combinar a luta contra as opressões com a luta contra o capital e pela construção do socialismo. O governo de Dilma e Roseana foram denunciados como responsáveis pelo crescimento da violência contra a mulher no Maranhão e no Brasil. A Marcha da Periferia prestou solidariedade à luta do povo haitiano contra a ocupação militar de seu país liderado pelas tropas brasileiras, à luta do povo palestino, à primavera árabe, sobretudo dos levantes no norte da África, e a resistência da classe trabalhadora européia contra os ataques dos capitalistas e seus governos.

Na seqüência aconteceu o 22º Festival de Hip Hop Zumbi no Circo Cultural da Cidade como momento de celebração da periferia e de homenagem aos negros e negras que tombaram em nome da luta contra o racismo e o capitalismo. A Marcha da Periferia do Maranhão foi uma continuidade da ocorrida no dia 20 de novembro em São Paulo. Estão dadas as condições para que a mesma se estenda para outros estados brasileiros nos próximos anos.


Hertz Dias é militante do Movimento Hip Hop Quilombo Urbano e da Secretaria de Negros e Negras do PSTU

O QUILOMBO HOMENAGEIA MAGNO CRUZ EM CORES AFRICANAS

Produção de Graffiti em homenagem a Magno Cruz, um homem negro, uma história de luta, um exemplo a ser seguido, feita no Encontro de Graffiti organizado pelo ‘’Pinta Tudo’’, realizado no bairro do Coroadinho. Atividade realizada no dia 20 de Novembro, data esta, em que comemoramos o dia da Consciência Negra, resgatando, lutando, mantendo viva a luta do nosso povo negro perante as desigualdades sociais vindas desde as nossas origens, tanto aqui no Brasil, assim como em muitas outras partes do mundo, com as invasões territoriais e explorações. E sofremos com as suas conseqüências que persistem até hoje, principalmente a população negra e indígena. Nós do Movimento Organizado de Hip Hop do Maranhão Quilombo Urbano por entendermos e sofrermos na pele, literalmente falando, as mazelas que geram o sistema capitalista cada vez mais graves e mascarados com o assistencialismo sendo reproduzido na sociedade, lutaremos até a vitória, tendo como referências os que lutaram ou lutam por um melhor amanhecer. A cada ação do D’SKERDA crew e outros grupos de graffiti revolucionários, um enfrentamento a opressão com manifestos mantendo a correria firme e forte. Todos os heróis estão vivos, porque quem morre na luta, não morre, vive eternamente. Palmares somos nós, Zumbi vive!
‘’Gegê’’- Militante do Mov. Org. de Hip Hop Quilombo Urbano, Membro da Executiva CSP Conlutas, Militante do MH2M Quilombo Brasil...

MEUS HERÓIS NÃO MORRERAM DE OVERDOSE


Graffiti produzido no dia 17 de novembro, em atividade da VI Marcha da Periferia realizada na Escola Prof.ª Margarida Pires Leal/IEMA, localizada no bairro da Alemanha. Atividade esta, que se somou como parte da programação da Semana da Consciência Negra organizada pelo Movimento Organizado de Hip Hop do Maranhão Quilombo Urbano- filiado a Central Sindical e Popular CONLUTAS, Movimento Estudantil Combativo, Sindicatos de luta, Esquerda Revolucionária e Representantes de comunidades por onde a marcha percorreu no decorrer de sua construção durante o ano. O tema abordado pela VI Marcha da Periferia neste ano de 2011 foi Contra a Criminalização da Pobreza. E como temos por objetivo ressaltar os nossos mártires negros e uma das formas de criminalizar a pobreza é colocar as drogas dentro das periferias, utilizamos então, a seguinte frase no graffiti: ‘’Nossos heróis não morreram de overdose’’. (Muito emocionante esta atividade, com vários momentos inesquecíveis e um deles foi quando começou a ser a escrito a frase na parede e os estudantes estimulados pelo graffiti, começaram a cantar um trecho música Herói de Preto é Preto, do grupo de rap Gíria Vermelha onde diz “Meus heróis não morreram de overdose como tem o opressor, herói de grife, de moda, que te ensina a ser racista”)
Um dos exemplos que podemos citar que tem essa relação de destruição do povo através das drogas e desestruturação de organização popular nas periferias das cidades é infiltração de drogas nos guetos nova iorquinos com o apoio do governo dos EUA, no momento em que a população negra se organizava e lutava pelos direitos civis no início dos anos 1960, que logo depois no ano de 1966, fundaram o Partido Pantera Negra para Auto-defesa (Black Panthers). Em nível de Brasil podemos citar outro exemplo no mesmo sentido, que foi no início do Movimento Negro em São Paulo, onde os homens que mais se destacavam nos Bailes Blacks eram os homens que não consumiam bebidas alcoólicas e outros tipos de drogas. Porém, isso foi sendo destorcido e destruído com o passar do tempo com a infiltração de drogas nos bairros e principalmente nas periferias, como política de Estado que cumpre o papel de criminalizar e exterminar a juventude negra, que historicamente tem sido submetida a viver à margem da sociedade.
Mas o que está acontecendo nas últimas décadas é que a juventude, principalmente a juventude negra e pobre consumindo bebidas alcoólicas e envolvida no tráfico de drogas que antes era coisa dos que tinham melhores condições financeiras, mas que foi ampliado para a massa tanto para desmobilizar a população, quanto para o aumento de lucros dos verdadeiros traficantes que não moram nas favelas e sim em prédios e casas de luxo. Nossos inimigos não são nossos irmãos da periferia, nossos inimigos estão do outro lado da ponte e eles se utilizam do tráfico para nos explorar, nos destruir e nos matar, tendo como exemplo o CRACK que tem ganhado cada vez mais espaço dentro das favelas e na vida da população negra.
É preciso que a periferia se organize para combater e reverter essa situação que é imposta para nós. Lutar é preciso!

‘’Gegê’’-Militante do MOv. Org. de Hip Hop Quilombo, Membro da Executiva CSP Conlutas/MA, Militante do MH2M Quilombo Brasil...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

VI MARCHA DA PERIFERIA

Marcha da Periferia


Em novembro, na semana da consciência negra, marchamos dando continuidade as lutas que são travadas nas ruas no decorrer do ano. Levantamos nossas bandeiras fazendo nosso manifesto levando as reivindicações da periferia para o centro em caminhada pelas ruas do centro da cidade de São Luis/MA. Sociedade Civil, Movimento Estudantil, Movimentos Populares e Organizações Sindicais realizam a Marcha da Periferia.

A Marcha da Periferia, um ato político e cultural, surge em 2006 com o intuito de fortalecer a luta da classe trabalhadora. Esta é uma manifestação construída em diversas comunidades. Nos meses que antecedem as marchas são realizadas atividades em bairros abordando questões sociais. E é organizada pelo Comitê Pró-Periferia, estando composta principalmente pelo Movimento Organizado de Hip Hop/MA Quilombo Urbano, Central Sindical e Popular Conlutas, Quilombo Raça e Classe, ANEL: Assembléia Nacional de Estudantes – Livre e Representantes de várias comunidades.

Nos anos anteriores temas como Reforma Agrária, Reparações para com o povo negro, Pelo Fim da “Guerra Interna” na Periferia, Reforma Urbana foram colocados para discussão junto à sociedade. Neste ano de 2011 está sendo debatido o tema Contra a criminalização da pobreza. No decorrer da construção de cada edição da marcha é feito e entregue ao governo e a prefeitura um documento com pautas de reivindicações relacionadas à educação, habitação, saúde, desemprego, segurança pública, tendo como objeto pressionar os governantes a agirem de acordo as necessidades do povo. Seja Quilombola, Indígena, Preto ou Branco só não seja traidor. Todos os povos periféricos, uni-vos. Marchamos, marcharemos até vitória!!!





“Gegê”...

Militante do Mov. Org. de Hip Hop Quilombo Urbano

Militante da CSP Conlutas-MA

sábado, 22 de outubro de 2011

Atividades nos Bairros de São Luís Esquentam a Construção da VI Marcha da Periferia.

Quatro atividades vitoriosas em apenas uma semana. É isso mesmo, a VI Marcha da Periferia começou a ganhar as ruas e praças de São Luís com toda força. Na quarta feira, dia das crianças, duas atividades foram realizadas durante todo o dia no Bairro da Liberdade. Uma na comunidade da Floresta e outra na Boa Esperança.  Regado a hip hop, reggae, músicas infantis, lanche comunitário e muita brincadeira, as atividades envolveram um grande números de moradores do bairro, sobretudo as crianças e adolescentes. Os responsáveis pelas atividades foram os membros da Posse de Hip Hop Liberdade Sem Fronteiras, CSP Conlutas e do Movimento Negro Quilombo Raça e Classe em parceira com dezenas de moradores do bairro, especialmente as mulheres.    
              Na sexta-feira, dia 15, foi à vez do bairro do Coroadinho onde todas as sextas funcionam a Posse “Bancada Hip Hop” em uma praça localizada na entrada do bairro.   Aproximadamente 150 pessoas, a maioria jovens, se reuniram para escutar músicas, apreciar grafitagens ao vivo feitas e refletir sobre as falações que intercalavam com as atividades culturais. Também foi entregue um panfleto intitulado “Pelo Fim da Guerra Interna no Coroadinho”, tendo em vista que esse bairro esteve no centro do noticiário local e até nacional em função de conflitos ocorridos em seu interior nos últimos dias. A Bancada Hip Hop é construído por militantes independente e do Quilombo Urbano.
     No sábado, dia 16, o palco foi o bairro do Bequimão, onde foi exibido e debatido o documentário “Cenas de Uma Guerra Particular”. Além disso, os presentes tiveram oportunidade de presenciar uma rodada de estilo livre no rap (Freestyle) e ler três panfletos diferentes que foi entregue por militantes do Quilombo Urbano, ANEL e Quilombo Raça e Classe, que estão construindo uma posse neste bairro. Ao final alguns moradores que residem nas proximidades da praça onde foi realizada a atividade foram pessoalmente parabenizar os seus organizadores.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

TERRA DE PRETO NÃO É GUETO, TERRA DE PRETO É QUILOMBO.


Companheiras e Companheiros de luta

Nossos companheiros da Comunidade Quilombola do Charco e de Cruzeiro de São Vicente de Férrer estão acampados na Praça Pedro II em protesto contra o assassinado do líder Quilombola do Charco Flaviano Pinto Neto no final do ano passado, contra a impunidade em relação aos comprovadamente mandantes e assassinos que não estão presos e conseguiram habbeas corpus e a total parcialidade da Justiça neste estado.
O acampamento precisa de todo apoio. Nós da CSP-Conlutas manifestaremos nosso apoio, solidariedade ativa de classe em uma atividade político-cultural amanhã (quinta-feira), 02/06. Levaremos uma merenda, passaremos um documentário Quilombo e o Movimento de Hip Hop Quilombo Urbano fará apresentação de grupos de Rap. Convidamos aos demais que possam levar violão, cantar, recitar poesias, etc. Toda solidariedade aos Quilombolas do Charco e Cruzeiro!
Cadeia para os mandantes e assassino de Flaviano Pinto Neto!
Pela imediata regularização das terras do Charco e Cruzeiro!
Pelo fim do latifúndio!  

Central Sindical e Popular CSP-CONLUTAS, Construindo na Luta uma organização classista e internacionalista!

sábado, 12 de março de 2011

Bairro da Liberdade, uma pedra no sapato da Burguesia Maranhense.

Diariamente nos programas policiais, vemos o bairro da Liberdade sendo referência de bandidos, delinqüentes, ou de alguém que cometeu algum delito, onde os repórteres que sempre estão de plantão na Refesa, fazem questão de dizer, que o bairro é o mais violento de São Luis, e o que acontece o maior número de homicídios, justificando a presença constante da polícia e a marginalização dos seus moradores, tirando o foco dos problemas sócias que o bairro tem. Numa audiência em novembro do ano passado, onde estávamos sendo acusado de desacato, após termos sido presos e espancado pela policia, pelo simples fato de três negros estarem de carro novo na rua 24 de agosto, mais conhecida como rua da vala no Bairro da Liberdade, tida como área de risco pro estado, a promotora do processo, diga-se de passagem branca, fez questão de dizer “ pra entregar um oficio na Liberdade, tem que ser com quatro ou mais viaturas”, afirmando o discurso dos meios de comunicações Burgueses, que não tem nenhum compromisso com a verdade e com a nossa comunidade, fazendo do Bairro referência da violência em nosso estado, o mais miserável do Brasil. Sabemos que essa criminalização tem tudo a ver com a sua posição geográfica e com os seus moradores, pois o bairro da Liberdade fica no centro da cidade e a maioria dos moradores são descendente de africanos vindos da baixada maranhense, devido a expropriação de suas terras quilombolas por grupos armados a mando de políticos oligarcas como Sarney. Sabemos também que a violência esta em todo lugar, e discutir as suas causas não é pedir mais policia, pois violência não é resolvida com violência, e sim com educação, emprego, moradia, cultura e lazer. Conhecendo a posição geografica do bairro, da pra entender o porque dessa criminalização, pois o bairro esta numa região muito cobiçada pelos ricos do setor imobiliário, que com a ajudar do PAC(programa de aceleração do crescimento dos ricos), querem a todo custo remover as comunidade de suas áreas de vivência. Comunidades como o Bairro da Liberdade, que tem uma história de resistência e luta, através das suas práticas culturas e dos movimento sócias como a Posse de Hip Hop Liberdade Sem Fronteiras, que tem se mobilizado junto com o movimento de Hip Hop Quilombo Urbano, para levar aos poderes públicos as reivindicações do Bairro, como foi na 5ª marcha da periferia no ano passado. Vendo que a história do bairro é outra, não de violência como mostra a mídia burguesa, que finge em não ver a violência institucional, pela falência das políticas publicas em nosso estado. Fazemos as seguintes perguntas. Porque que esses programas não falam que o bairro é um dos mais ricos culturalmente do País; Bumba boi, Tambor de Criola, Cacuriar, Bloco tradicionais, casas de culto afro, Festa do Divino, Reggae Root´s e o Hip Hop, onde alguns deixaram de ser coisa de marginal, após os brancos assimilarem, como o Reggae, que hoje serve de cabide eleitoral pra políticos como Pinto da Itamarati, que esta mais preocupado em fazer lei contra detento, do que trazer melhorias pro bairro da Liberdade, maior acervo de Reggae Root´s no mundo. Porque eles não falam dos problemas de infra-istrutura que o bairro tem passado, como a questão da água que é um dia sim e vários não, porque não falar da escola Cesar Abud que foi fechada e dos professores que estão em greve desde o início de 2011, por melhores condições de ensino, no governo de Roseana, que dizia que ia revolucionar a educação no Maranhão. Porque não falar da violência policial que já virou rotina dentro da nossa comunidade, onde varias pessoas do nosso movimento ja foram vitimas da polícia.
 Hoje o que esta acontecendo com o bairro da Liberdade, e o mesmo que aconteceu com os guetos Norte-americamos, onde comunidades inteiras foras exprópiadas de suas áreas de vivência para da espaço as grandes avenidas, condomínios de luxo e shopp´s centes “esse período foi marcado pelo reordenamento urbano, em que vários bairros pobres foram posto abaixo afim de serem substituídos por grandes avenidas e espaços privativos, onde os mais atingidos foram as populações negra e inspânica(R. E Santos, 2007)". Situações como esta, que o Bairro tem passado, nos faz acreditar que essa política de criminalização e remoções, é uma política imperialista no mundo, que tira o foco dos problemas sócias das comunidade pobres, para trata-las como se fosse simplesmente problemas de polícia, criminalizando os moradores, os tratando como bandidos em potencial.

p/ Sonianke, Posse de Hip Hop Liberdade Sem Fronteitas.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O MAPA DA VIOLÊNCIA DA JUVENTUDE E O EXTERMÍNIO DA JUVENTUDE NEGRA NO MARANHÃO

Prof. Rosenverck E. Santos
Foi lançado em Brasília, na quinta feira dia 24, pelo Ministério da Justiça, o Mapa da Violência 2011 – Os Jovens do Brasil. Sob coordenação do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz o estudo demonstra o grau de extermínio porque passa a juventude negra e pobre, moradora das periferias dos centros urbanos, neste pais.
No maranhão o salto do extermínio da juventude pobre e negra foi brutal – mais de 300% de aumento da violência. O que fica explicito no próprio documento em questão:
“Observando mais atentamente as Unidades Federadas, ficam evidentes modos de evolução altamente diferenciados, com extremos que vão do Maranhão, Pará ou Ceará, onde os índices decenais se elevam drasticamente”, ... Nesse sentido, a capital do Maranhão, São Luis, sai do 23º lugar em 1998 para o 11º em 2008.
O Número de Homicídios na População de 15 a 24 anos por UF e Região no Brasil de 1998/2008 demonstra que o Maranhão saiu de 1998 de 74 homicídios para 455 homicidios em 2008, ou seja, um aumento alarmante e assustador, principalmente em se tratando da população negra, como diz o documento:
“Efetivamente, de 2002 a 2008, para a População Total:
• O número de vítimas brancas caiu de 18.852 para 14.650, o que representa uma significativa diferença negativa, da ordem de 22,3%.
• Já entre os negros, o número de vítimas de homicídio aumentou de 26.915 para 32.349, o que equivale a um crescimento de 20,2%. Com isso, a brecha que já existia em 2002 cresceu mais ainda e de forma drástica...ou seja, morrem proporcionalmente 67,1% mais negros do que brancos”.
Poderia continuar cintando milhares de dados e recortes de raça/classe/gênero que só comprovariam o extermínio da juventude negra e pobre. Mas esses dados podem ser vistos no próprio documento disponibilizado – sem nenhuma vergonha na cara – pelo Ministério da Justiça.
Entretanto, isso evidentemente não causa espanto pra quem vive nas periferias do Maranhão que cotidianamente observam seus jovens sendo vitimados pela ausência completa de políticas publicas na educação, saúde, lazer, cultura, trabalho e o que mais queiramos citar.
Exceção feita, a presença sempre ostensiva dos aparelhos repressivos do Estado como a Policia que não apenas é uma das principais responsáveis diretas pelo assassinato de milhares de jovens – principalmente negros – como são responsáveis indiretos, junto a outros órgãos do Estado na medida que potencializam, a partir de inúmeros métodos, a guerra interna na periferia causando mortes e violência.
No entanto, o que é mais ridículo e trágico e assistir as desculpas esfarrapadas dos órgãos de (in)segurança, em especial do Secretário de Segurança do governo Roseana que atribui o aumento da violência ao uso e difusão das drogas. Mais uma vez – e, essa historia é antiga – se culpa a vítima pelo violência que sofre.
Como já escrevemos inúmeras vezes, o Brasil historicamente tem uma política de extermínio da juventude negra que tem suas raízes na escravidão e que se funda teoricamente com o nascimento da Republica que associa princípios escravistas remanescentes da colônia e do império com o discurso raciológico, capitalista e eugenista do início da República.
Era necessário embranquecer este país fenotipicamente e isso deveria ser realizado com qualquer arma que estivesse na mão. A política era clara e habilmente manobrada para conquistar neutralidade e legitimidade.
Como já escrevi em outra oportunidade: “A equação é simples. Retira-se tudo: educação, saúde, esporte, direitos sociais, trabalho, lazer... empurra para a marginalidade....retira-lhes a identidade, o nome, a história, as referências, a dignidade e os renomeia: - bandidos. Depois disso: se mata, se extermina... se acaba com o perigo negro da juventude brasileira. Uma política que tem história e que se renova; que tem múltiplas causas e justificativas; que tem diferentes contextos e territórios. Mas o resultado final é sempre o mesmo: o extermínio da juventude negra”.
E depois ainda tem mais: se culpa as vítimas pelo seu extermínio. Antes, porque não queriam trabalhar, porque eram inferiores...hoje porque são usuários de droga....como se a fabricação, controle e organização do tráfico de droga não tivessem origem nos condomínios de luxo, na elite brasileira e nos gabinetes com ar condicionado como política social e coletiva bem definida de extermínio e incentivo da guerra interna na periferia.
A droga - na sociedade capitalista, com a forma que adquire - não é problema individual; é política coletiva e social de dominação e implantação de um projeto de país.

Precisamos, portanto, de um outro modelo de sociedade e nação, para que os jovens pobres e negros no Brasil possam realmente ter sua juventude conquistada e, assim sendo, não morram muito antes de contribuírem para a contrucão de uma sociedade igualitária – esse sim o real perigo que assuta as elites desse país.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O VELHO DISCURSO DO BOY NA BOCA DO RAP*




Eu acho que o rap feito no Brasil ele tem muita identidade tem muita coisa legal, mas muita gente se aproveitou desse tipo de rap no Brasil e parou de criar, foi mais fácil copiar grandes artistas de rap, não só se inspirar, mas copiar, e disso começaram a criar o que? Muita musica com o mesmo assunto, mesmo tema, isso cansou um pouco.  
 
              As palavras acima são de uma respeitadíssima e histórica figura do Hip Hop nacional, é do “velho” Humberto Martins da dupla Thaide e Dj Hum que muito fizeram pelo Hip Hop brasileiro, homens pelo qual guardo grande apreço, apesar discordar do referido discurso, discurso esse que vem a cada dia se proliferando entre  protagonistas e adeptos da cultura ou  Movimento Hip Hop. 
              Quero iniciar dizendo que esse discurso de que o rap está repetitivo e que, portanto, seria necessário inovar nos temas, nas letras, musicalidade e tal, não é tão novo assim, ele é tão antigo quanto a preocupação da burguesia brasileira com a ameaça política que o Hip Hop passou a representar desde início da década de 1990. Quem é das antigas deve lembrar a música “Poder da Rima” do disco Bem Vindos ao Inferno do grupo Sistema Negro. Nessa canção de 1994 já constava uma resposta a esse tipo de acusação contra as letras do rap :

Música de preto coisa de desesperado/ ouço um idiota numa estação de rádio/ querendo sim acabar com nossa música/ por não ser agradável como o samba/ 

                Em uma entrevista concedida ao YO Rap! nesse mesmo período, Turbo, na época vocalista do grupo Comando DMC, rebatia esse tipo de acusação lembrando que ninguém criticava os pagodeiros por falar só de amor, mas faziam isso com o rap por ser música de protesto (infelizmente não encontrei a entrevista no youtube). 
               Donos de gravadoras e mesmo alguns MC,s reproduziam constantemente esse mesmo discurso, especialmente nas entrevistas concedidas ao YO Rap! Era preciso mudar a cara do Hip Hop, diziam. A questão é que a década de 1990 não foi uma década qualquer. Era praticamente impossível mudar a “cara” do Hip Hop naquele período com tanta luta acontecendo nas ruas, massacres de detento, sem-terra, menores, etc. Nem o presidente Collor de Melo e nem os caras pintadas escaparam das ácidas criticas do Hip Hop. Para constatar isso basta escutar a belíssima canção “Assassinato sem Morte” de GOG. 
                     Na contramão dos discursos dos “bem intencionados”, os discos lançados eram cada vez mais “agressivos”, o que não significava necessariamente “sem musicalidade”. Racionais MC’s, Cambio Negro, Comando DM, Visão de Rua, Sistema Negro, GOG, DMN e tantos outros grupos preferiram falar das dificuldades do seu povo, de ser preto, de ser pobre, de ser favelado, pois nada disso é moda, são condições, ou seja, moda e condições sócio-raciais são duas coisas bastante distintas. 
                Pelo menos para mim três canções sintetizam bem o que foi a primeira metade da década de 1990: Sub-Raça (Cambio Negro) Homem na Estrada (Racionais MC’s) e Assassinos Sociais (GOG). É verdade que havia dezenas nessa mesma linha, uma resposta extraordinária aos “bem intencionados” que queriam tomar o leme e as velas políticas do nosso barco. O nocaute final a esse discurso na década de 1990 veio com o CD “Sobrevivendo no Inferno” do Racionais Mcs, lançado em 1997.  O tom agressivo e as denúncias contundentes das letras calaram parcialmente os “bem intencionados” da boa musicalidade. 
               Na seqüência foram sendo lançados dezenas de discos com esse mesmo propósito e por incrível que pareça a notoriedade que o Hip Hop nacional ganhou nesse período não foi com canções melódicas como desejavam os boy’s (donos das grandes gravadoras e emissoras de rádio e televisão) foi com canções de protestos tais como necessitavam milhões de favelados sem vozes nesse país. 
              Um exemplo disso são todos os CD,s do Facção Central lançados nos últimos 10 anos. Vai dizer que Facção Central é chato e monótono para favelado que tem na ponta da língua e no fundo coração as dezenas de canções desse grupo? Aconselho a não fazer isso, pois há uma identidade intrínseca entre a realidade denunciada e a vivida. Para playboy que escuta Facção como se estivesse assistindo um filme talvez esse discurso seja mais coerente, mas para favelado que está no “filme” é claro que NÃO. 
                      Contudo, vinte anos depois o velho discurso volta à tona. A diferença agora é que o discurso do boy encontrou ressonância e porta-vozes dentro do próprio Hip Hop, especialmente entre os MC’s. Há uma auto-acusação generalizada de que o rap está chato, sem musicalidade. Até a “cara amarrada” de cantor de rap e de se público é motivo de chacota. Imagine o grupo “A Família” cantando o rap “Castelo de Madeira” com um baita sorriso no rosto? Até parece que a culpa de favelado andar de “cara feia” é do rap e não das condições objetivas vividas cotidianamente pelos favelados, que as canções de rap apenas interpretam. Ou será que favelado desempregado que escuta pagode e axé music  vive sorrindo com as paredes?
                     O Hip Hop, assim como o jazz, nasceu de uma necessidade objetiva de afro-descendentes que queriam se expressar sobre suas condições de vida e não tinha outros meios para fazê-lo ou eram impedidos, aliás, a maioria das músicas de preto surgiu assim. O formato do rap é uma resposta consciente ao formato da grande mídia, da sociedade, ou seja, é uma resposta consciente a exclusão sócio-racial existente no capitalismo em qualquer parte do mundo, por isso o rap é a música internacional do protesto, apesar dos “comédias” . 
                   Se falar de preto ficou chato no rap, por que então não falar pra polícia que esse negócio de espancar e matar preto está ficando pra lá de chato? Que tal então pedir para apontar suas armas para os “branquinhos dos shoppings”? Quem sabe assim não teríamos novos temas pra abordar em nossas canções? A questão é que as letras de rap são tão perenes quanto às águas sujas do capitalismo. 
                  Esse falso discurso esconde os interesses de alguns grupos de rap e de empresários da música e da moda. Negar o passado como se fosse um tempo morto sem nenhuma relação com o presente é a nova estratégia de quem quer aderir ao “velho discurso”. FHC fez isso quando assumiu a presidência ao falar “esqueçam tudo o que eu já escrevi”, Lula falava isso quase todo dia, agora é vez dos rapper’s brasileiros. Dizer que a música é mal feita é só um pretexto. MV Bill, por exemplo, não está cantando rap no Malhação, mas atuando como ator em um programa que tem um conteúdo político pior do que as músicas do “Sambabacas” do programa “Casseta e Planeta”.  Chato é o “Malhação” e não as canções feitas com tanto sacrifício e limitações financeiras por quem vive na periferia. 
                      O Racionais MC’s aderiu a Nike, uma empresa multinacional que escraviza trabalhadores e explora trabalho infantil e agora diz que quer fazer diferente para sair da mesmice. Trabalhar como escravo numa empresa como a Nike que fatura US$ 13,7 bilhões por ano, isso sim deve ser monótono e revoltante. 
                    Entendo que o rap precisa sim mudar o discurso, deve ser mais radicalizado, e não mais “agradável”, a questão da melodia vai da subjetividade musical de cada um, pois quem sou eu pra falar? Afinal de contas o aprimoramento não é uma necessidade natural que todo ser humano tem?
                     Como educador percebo a cada dia que passa a importância que tem o Hip Hop para a juventude favelada. O Hip Hop ousou tratar de temáticas que a maioria dos professores ainda encara como tabu. O rap, infelizmente, ainda é o “livro musicalizado” de um país de analfabetos funcionais. 
                   É inadmissível que uma geração de “moleques” com idades entre 15 e 22 anos tenha corajosamente assumido uma responsabilidade política que muitos dos nossos pais não tiveram condições de assumir, isso numa década considerada politicamente “perdida”, e agora batendo a casa dos 40 anos, sobre falsos argumentos, tentam se livrar da “trouxa” política que vinham carregando para ser degustado com mais apreço por aqueles que há 20 anos eram considerados nossos inimigos mortais, é lamentável!  
                Quem é a Nike? Quem é a Globo? A quem serve o governo de Dilma? Por que ocuparam o Complexo do Alemão numa estratégia combinada desde 2008 entre o governo brasileiro e a embaixada norte-americana? Segundo dados do MTST, cerca de quatro milhões de pessoas serão remanejados das áreas próximas aos locais onde serão realizados os jogos da Copa de 2014 e das olimpíadas de 2016. Não é só por isso, mas por isso também que querem controlar as vozes daqueles que aparecem como um grande incômodo para os interesses espúrios que se escondem por trás desses jogos, bem como para a crise do capital iniciada em 2008 e que já está retornando com muito mais fôlego, a exemplo do que vem ocorrendo em quase toda a Europa, Tunísia e Egito. 
             Quem quiser mudar de discurso que mude, quem quiser se lambuzar com as migalhas desses malditos senhores, que assim faça. Só não é correto transformar a favela em vítima do rap e o boy em seu juiz de plantão. 

* Hertz Dias, Militante do Movimento Hip Hop do Maranhão “Quilombo Urbano” e vocalista do grupo Gíria Vermelha

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

POR QUE A ESQUERDA SOCIALISTA E OS MOVIMENTOS SOCIAIS COMBATIVOS DEVEM MARCHAR COM A PERIFERIA

Hertz Dias

Militante do Movimento Hip Hop Quilombo Urbano- filiado a CSP-CONLUTAS

Politicamente falando a periferia possui, para parte da esquerda brasileira, o mesmo significado espacial que tem para muitos geógrafos e sociólogos, um lugar distante do centro, distante da pólis, distante do eixo das decisões políticas, um lugar sem peso político significativo, portanto desinteressante para o processo de (re) organização da classe trabalhadora. Esse, infelizmente, é o pensamento hegemônico entre nós, um pensamento que homogeneíza a periferia: lá todos são iguais, despolitizados e corruptíveis, então melhor manter distância.

Muito desse olhar é decorrente do ranço economicista e pequeno burguês que infla certa estratégia politicamente equivocada de enfrentamento ao capital: por excelência os meios de produção são o coração do capital; contudo, uma verdade pouco considerada é que o coração não é o seu único órgão vital.

Desde quando a consciência da burguesia alcançou o patamar de classe para si, seu objetivo estratégico sempre foi a tomada do poder para destravar o processo de expansão do capital e consolidar o seu modelo de sociabilidade. Para isso pegaram em armas e armaram o Povo. Hoje o objetivo da classe burguesa é a manutenção de sua reprodução permanente, e para atingir esse escopo tudo é válido, pois em tempos de crise não basta mais só explorar nossa classe, é preciso também exterminar uma parte do seu grosso: para a juventude negra a linha de frente.

O genocídio da juventude negra é política de Estado, do Estado burguês em suas mais diversas facetas, não por que querem, mas por que necessitam. Se o racismo é um trunfo em suas mãos, então por que não usá-lo, ainda que formalmente o condene? É sempre bom lembrar que a burguesia brasileira nasce rasgando a pele da decadente classe escravocrata, conservando, no entanto, ossos, carnes e músculos. Por isso o Brasil, um dos países mais racistas do mundo, foi durante muito tempo apresentado ao mundo como portador da mais perfeita democracia racial. A ideologia racista ressignificada no pós-abolição pela inteligentzia burguesa brasileira contaminou muitos setores importantes da esquerda no país. Em razão disso, durante muito tempo falar em luta contra o racismo no Brasil era considerado um pecado anacrônico, tanto pelas elites quanto pela esquerda. O racismo brasileiro passava a ser visto como uma invenção dos Movimentos Negros. Muito disso foi preservado ao longo dos anos.

Há sim esforços de uma parte ainda minoritária da esquerda em negritudizar a luta pelo socialismo, não por ser charmoso lutar contra o racismo, muito menos em razão de um piegas sentimento humanitário, mas movidos por uma necessidade igualmente revolucionária. Acontece que uma causa dessa envergadura não pode ter uma importância minúscula. No Brasil, o racismo e o capitalismo devem ser tratados com irmãos gêmeos; aliás, gêmeos e genocidas. A MARCHA DA PERIFERIA nasce dessa compreensão.

Em 2006 um grupo de jovens ligados a uma histórica organização de Hip Hop de São Luís do Maranhão, o Quilombo Urbano, resolveram construir as marchas da periferia no intuito de ampliar o diálogo político com os moradores desses bairros pobres, negros e criminalizados, especialmente com a sua juventude. Para a construção das Marchas foi criado o Comitê Pró-Periferia, formado por toda e qualquer entidade que se identifique com o propósito.

Essa iniciativa foi decorrente da percepção de que há uma política deliberada e sistematizada por parte dos detentores do Estado de empurrar a juventude negra para as trincheiras da guerra interna na periferia. Hoje a Guerra Interna é uma necessidade política da direita para controlar socialmente o setor mais explorado e oprimido da classe trabalhadora, é uma guerra da classe na classe, é uma guerra politicamente horizontal; enfim, a guerra interna é uma guerra autofágica.

Diante disso, a Marcha da Periferia surge como pólo contra-hegemônico a esse processo. Em cada atividade construída nos bairros, visando sua realização na semana da consciência negra, há um esforço permanente de buscar a unidade de classe e de raça na consciência desses jovens. Os resultados dessa ação política têm sido fantásticos, porém uma solidão aguda ainda nos toca.

A Marcha da Periferia não se constitui ainda em um movimento de massa, reúne em torno de 500 a 800 pessoas, o que, diante de uma conjuntura de remotos movimentos de enfrentamento contra o Estado burguês, não deixa de ser uma iniciativa plausível. Por isso mesmo a ausência de muitos sindicatos, movimentos e do setor majoritário daqueles que se reivindicam como da esquerda socialista nessa brilhante experiência, única em nível de Brasil, é de saltar aos olhos.

Não sabemos se isso se dá em função da composição étnica dos que marcham, se pelo fato da iniciativa ser de uma organização de Hip Hop (visão culturalista), se por que a maioria dos que marcham não podem fazer greve, pois tem sua força de trabalho rejeitada pelos capitalistas ou ainda simplesmente por ser da periferia, lugar marcado pela violência. O certo é que entre mil desculpas, nenhum convencimento. Felizmente, sem muito apoio político e financeiro a periferia ousa continuar marchando contra o racismo e o capital.

SE A MONTANHA NÃO VAI ATÉ MAOMÉ...


Lênin lembrava que às vezes a consciência das massas poderia avançar para além do que a vanguarda imaginava, afinal, consciências não são mensuráveis. Em sua 5ª edição a Marcha da Periferia ganha novos e forte aliados. O tema escolhido para 2010 foi acertadamente “Reforma Urbana Já”. Essa temática coincidiu com uma conjuntura de enfretamento de diversas comunidades do Maranhão e do Brasil com o grande capital imobiliário e industrial que, para se apossar de terras e riquezas naturais dessas comunidades arvoram-se no direito de organizar até milícias. O Estado, por seu caráter de classe, tem sido conivente com esses empresários quadrilheiros. Assim, por força da história e das condições dadas, a Marcha da Periferia e a Relatoria de Conflitos Urbanos e Agrários resolveram unificar suas agendas.
                                                                                                           
Dezenas de comunidades da região metropolitana de São Luís estarão presentes na Marcha da Periferia do dia 19 de novembro, caminhando pelo centro comercial até a sede dos governos municipais e estaduais, colocando em pauta suas reivindicações. Por outro lado, as entidades que compõem o Comitê Pró-Periferia, especialmente a CSP CONLUTAS, ANEL e Quilombo Urbano estarão construindo e participando das atividades que ocorrerão nessas comunidades no período de 16 a 18 de novembro. Movimentos de diversos estados do Brasil também estão tentando viabilizar a presença nessas atividades, alguns no intuito de verificar a experiência para construir as Marchas da Periferia em seus estados de origem.

É obvio que não estamos diante de nenhuma luta pela tomada do poder ou para derrubar Roseana Sarney, João Castelo, muito menos Lula ou Dilma, longe disso. Inegável, entretanto, é que para os revolucionários a luta é um campo privilegiado para construção da unidade de classe, para que os trabalhadores e seus filhos reencontrem os caminhos de sua organização política. Setores com características e demandas completamente diferenciadas se encontrarão nessas atividades justamente pela essência da classe a qual pertencem, sabedores ou não disso. A princípio será uma resistência contra a investida brutal do capital nacional e transnacional, mais à frente poderá se transformar em uma contra-ofensiva ao capitalismo. Tudo isso, evidentemente, depende das direções, e nem todas são revolucionárias, algumas inclusive governistas.

A esquerda socialista e os movimentos combativos precisam engrossar as fileiras dessas lutas. Em tempos de ativismo político via internet as ruas solicitam nossa presença. Para além do Quilombo Urbano, para além da periferia, a Marcha da Periferia mais do que nunca é da classe trabalhadora.







DILMA, O GOVERNO LULA E A LUTA DA POPULAÇÃO NEGRA: entre o gabinete e a rua, o que fazer?

Rosenverck E. Santos
Professor da UFMA,
militante da CSP CONLUTAS
militante do Movimento Quilombo Raça e Classe.
No dia que entrou em vigência o Estatuto da Igualdade Racial a presidenciável do PT, Dilma Rousseff, dedicou o seu programa eleitoral ao que ela chamou de grande avanço da democracia brasileira. Não parou por aí. Trouxe, em seu discurso pérolas há muito desmistificadas pelo movimento negro como a do Brasil mestiço, onde não ocorre ódio racial e todas as raças se respeitam mutuamente formando uma nação harmônica e democrática, precisando apenas alguns ajustes. Não fosse trágico poderíamos pensar ser uma piada. Mas não era!

Tal afirmação não era apenas um jogo retórico de uma presidenciável. Pelo contrário, demonstra um projeto de país que acredita e difunde a Democracia Racial como pressuposto de legitimação do poder existente e da ordem necessária para se atingir o progresso. Qualquer semelhança com o ideário racista e positivista do inicio da República que empurrou a população negra para a marginalidade associando democracia e coesão racial, não é mera coincidência!

Este projeto consubstanciado no discurso eleitoral avança para além da verborragia descontextualizada para se materializar, enquanto projeto de país, na destruição das reivindicações históricas do movimento negro emblematizado na farsa do Estatuto da Igualdade Racial, na invasão do Haiti e no assassinato de milhares de crianças, homens e mulheres negras pelo exército de Lula e pelo veto dos artigos que tratam de financiamento da Lei 10.639/03. Ou seja, enquanto projeto de nação, você reconhece a diversidade etnicorracial do povo brasileiro e a mantém no plano ético, moral e intelectual, isto é, afirma a necessidade de se respeitar a diversidade como atitude intelectual e cultural, mas no plano concreto da materialidade não oferece nenhuma condição de implementação e implantação. Resultado esperado: a população negra mais uma vez será responsabilizada pelo seu lócus social na sociedade de classes. A lógica é simples: - se foi garantida as oportunidades, qual será a razão da pobreza social dos negros e negras. A resposta é velha: a incapacidade intelectual e moral dos negros e negras. Mais uma vez, qualquer semelhança com o ideário racista do inicio da República que empurrou a população negra para a marginalidade associando democracia e coesão racial, não é mera coincidência!

É por isso que as ações do governo do PT, muito habilmente, absorvem as demandas do movimento negro e as adequam ao estatuto puramente jurídico abstrato formal sem nenhuma ação real e concreta para torná-las implementadas e implantadas. É dessa forma que se garante a introdução da lei 10.639, no plano jurídico, mas não se garante o financiamento, nem a estrutura suficiente para a formação e viabilização da lei. Qualquer militante honesto do movimento negro sabe disso! É por isso que o governo e Dilma se vangloriam do Estatuto da Igualdade Racial retirando todos os parágrafos e ações que realmente mudavam alguma coisa na estrutura desigual desse país, mantendo inclusive a famigerada ideia de Democracia Racial. É um verdadeiro presente de grego – um presente ao estilo europeu fornecido pelos democratas do DEM e da bancada rural com o conchavo petista – para os pretos e pretas do Brasil. Levante o braço a entidade do movimento negro que também está nesse conchavo!

A direita liberal e/ou neoliberal tem bem claro seus aliados e/ou seus inimigos. A Frente Popular liderada por Lula e agora por Dilma também tem! Com uma diferença. Enquanto a direita neoliberal tem os movimentos sociais como inimigos, a direita travestida de esquerda conhece a força dos movimentos sociais e sabe (infelizmente) como cooptá-los. Sabendo que precisa de base de apoio que vá para além das oligarquias e da burguesia, a Frente Popular manipula e utiliza as lideranças como forma de anestesiar as reivindicações numa espécie de contrato social – outro presente à moda européia (?) - entre a elite e os movimentos sociais. Os movimentos sociais adestrados tergiversam e criam manobras linguísticas utilizando todo arsenal do português para afirmarem que “poderíamos ter mais, porém já avançamos muito”.

A questão, no entanto, não é se poderíamos ter conquistado mais, e sim, o que realmente poderíamos ter conquistado e o que realmente conquistamos e perdemos. Todo governo de Frente Popular, em sua função mediadora entre os exploradores e opressores e os movimentos sociais sabe magistralmente conceder com uma mão e retirar com a outra. O que se concede é maior e mais qualitativo do que o que se retira? Os artigos retirados da lei 10.639/03 valem menos que os outros? Vejam o Estatuto da Igualdade Racial, a invasão do Haiti, as secretarias sem orçamento e tantas outras medidas que estão na base e sustentam qualquer política pública que realmente se pense em fazer funcionar. Mas o pior não é isso!

O pior está no silêncio (dos vencidos?) de alguns movimentos sociais que ao se adaptarem à função mediadora do governo Lula e da proposta de governo de Dilma não apenas abandonam a rua para se tranca(fia)rem em escritórios com ar condicionados – à moda europeia ?– mas constroem um arsenal discursivo que joga na lata do lixo qualquer história militante e qualquer desconstrução simbólica que décadas e décadas foram necessárias para se fazer ouvir e sentir.

É por essa razão que ouvimos essencialismos conservadores como apoiar Dilma apenas por ser mulher. O essencialismo é uma marca da direita racista, é sua cria pseudocientífica. Atrelar a capacidade intelectual e moral à condição de sexo ou etnicorracial é criação racista da direita. Entrar nesse campo é jogar o jogo da elite que não faz parte de nossa história, de nossa memória e de nossa resistência. Apoiar Dilma por ser a primeira mulher presidente é reproduzir o discurso marginalizador da burguesia e reafirmar o essencialismo hierarquizado do ser humano. Se fosse um jogo de xadrez: - Xeque da direita!

Sabemos que o Estado apesar de ser um instrumento da burguesia para dominar é composto por contradições e que devemos atuar nessas contradições para atingir conquistas democráticas. Saber disso, no entanto, não nos autoriza a compactuar com um governo que mente, abusa da corrupção e empreende ou apoia o extermínio da juventude negra, da venda do pais, do desmonte da Universidade e do funcionalismo público que afeta indiscutivelmente a grande maioria da população negra do Brasil. Para atuar nas contradições do Estado, este Estado tem que estar sob o nosso controle, caso contrário, somos nós que estamos sob o controle dele.

Aos movimentos que chamaram voto a Dilma e a apóiam sintam-se a vontade para assumir esse governo como seus, afinal, as ruas, as greves, as passeatas, as barricadas estão pouco a pouco (ou muito em muito ?) deixando de lhes pertencer. Nessa relação entre Estado e movimentos sociais, vocês já são Estado e muito pouco movimento. Por isso a retórica de que podemos ainda conquistar mais... é retórica governista. É retórica lulista, sarneysta, collorista e de tantos outros oligarcas por esse país a fora!

Conquistar ou reconquistar a nossa história de resistência...isso sim, seria uma conquista que orgulharia Zumbi dos Palmares que não aceitou ser Estado opressor e se manteve no fronte de batalha!!

- Aos vencedores (ou vencidos?) reafirmamos: estaremos presente nas ruas, nas passeatas e nas greves entoando as lições de Solano Trintade que nos ensinou por meio de suas poesias – poesias que devemos revisitá-las – que não são irmãos aqueles negros que estão ao lado dos exploradores e opressores, não são irmãos aqueles negros que estão com as multinacionais,

são nossos irmãos apenas aqueles negros que continuam lutando pela liberdade e resistência da população negra...

Xeque-Mate da população negra trabalhadora!!!

sábado, 18 de setembro de 2010

A RESISTÊNCI A URBANA – Frente Nacional de Movimentos faz um alerta aos trabalhadores brasileiros sobre o avanço de uma política de despejos e de uma ofensiva do capital imobiliário nas metrópoles do país. O cenário que está sendo montado é de uma verdadeira operação de guerra contra os moradores de favelas, comunidades periféricas e os trabalhadores informais, em nome do “crescimento econômico” e da preparação do país para a Copa-2014 e Olimpíadas-2016. Os governos federal, estaduais e municipais prepararam seus planejamentos – em muitos casos, já em execução – para obras de grande impacto, que representam uma Contra-Reforma Urbana no Brasil, pela forma autoritária e excludente com que estes programas afetarão os trabalhadores urbanos (principalmente através de despejos e remoções em massa) e pela lógica de cidade que trazem consigo. Por isso, e contra isso, lançamos uma Campanha Nacional contra os Despejos.


I. A ofensiva do capital imobiliário

Há anos temos assistido a uma intensificação dos ataques aos moradores de favelas, periferias e subúrbios nas grandes cidades brasileiras. A forma desses ataques tem sido a realização de despejos e remoções de milhares de famílias, associada a novos empreendimentos imobiliários e a obras públicas. Os trabalhadores – especialmente os mais pobres – são expulsos para regiões cada vez mais distantes dos centros, para que as áreas urbanas com maior infra-estrutura e mais valorizadas possam abrigar novas obras e terem uma valorização ainda maior. Trata-se de uma política de “limpeza social”, onde as zonas urbanas de maior interesse econômico devem ficar livres dos pobres.

O que está por trás deste processo é o fortalecimento, como “nunca antes visto neste país”, do capital imobiliário: as grandes empresas de construção civil, as incorporadoras e os proprietários/especuladores de terra urbana estão em festa. Após a abertura de capital de grandes empreiteiras (a partir de 2006) e de sucessivos presentes do governo, o Programa Minha Casa, Minha Vida (anunciado no início de 2009) coroou a abertura de um período de vacas gordas para este setor do capital. Para que se tenha uma idéia da dimensão desses ganhos basta mencionar 3 fatos: O setor da construção foi quem puxou a alta da Bolsa de Valores de São Paulo no primeiro semestre de 2009, com uma valorização acionária de 87%; além disso, foi o setor que isoladamente mais recebeu do governo nas chamadas “medidas anti-crise”, com R$33 bilhões só através do Minha Casa, Minha Vida, para não citar o PAC; por fim, como pagamento dos bondosos investimentos estatais, o capital imobiliário se destaca como o maior financiador de campanhas eleitorais do Brasil – tendo “bancadas” em todas as instancias parlamentares e inúmeros representantes nos governos. Essas são demonstrações da força deste setor no capitalismo brasileiro e de sua capacidade de determinar a política de desenvolvimento urbano, manejando os governos e desconsiderando os interesses populares.

A aliança perversa entre Estado e capital imobiliário reproduz uma lógica excludente e repressiva de desenvolvimento urbano. Sob a bandeira do “crescimento econômico” passam por cima do que estiver pela frente, em geral comunidades inteiras, historicamente estabelecidas. Naturalmente, as casas derrubadas não são as mansões dos empreiteiros; estas não atrapalham o progresso e as grandes obras. É a lógica do predomínio completo dos interesses privados, da necessidade de aumentar os lucros e de valorizar cada vez mais o solo urbano. O valor do metro quadrado nas metrópoles brasileiras tem crescido numa escala astronômica. Ganham os especuladores, ganham as construtoras, ganham os caixas de campanha. Perdem os trabalhadores. O preço deste “crescimento” são os despejos, o aumento do número de trabalhadores sem-teto e a piora das condições de moradia para os mais pobres.

II. PAC, Copa e Olimpíadas: a contra-reforma urbana

Como se isso não bastasse, a ampliação das obras do PAC (com o anúncio do PAC 2) e as intervenções urbanas planejadas para viabilizar a Copa 2014 e as Olimpíadas 2016 prometem agravar o problema a níveis catastróficos. Além da construção de estádios e centros esportivos nas cidades-sede, estão previstas uma série de ações nas grandes cidades do país: novas avenidas, ampliação de aeroportos, obras de embelezamento para o turismo, etc. O governo pretende mostrar a todos o Brasil como um país de “primeiro mundo”; e para isso terá que afastar os pobres dos holofotes da mídia internacional e dos turistas.

Não faltam exemplos do que tem ocorrido em situações como esta. Recentemente, na Copa da África, dezenas de milhares de famílias sofreram despejo e estão sobrevivendo em alojamentos precários; além disso, o governo sul-africano criou – por exigência da FIFA – tribunais especiais, para julgar e condenar sumariamente trabalhadores pobres e negros que ousaram atrapalhar a festa. Mesmo em países ricos, como a Espanha (nas Olimpíadas de 1992), os resultados foram negativos aos trabalhadores: os terrenos de Barcelona tiveram uma valorização de mais de 130%, por conta da especulação no período, expulsando os pobres das regiões centrais. Nem precisamos ir tão longe. O Pan-Americano 2007 no Rio de Janeiro foi um momento de terror nas favelas do Rio de Janeiro: vários despejos aconteceram, foram erguidos muros entorno das favelas e ocorreu o Massacre do Complexo do Alemão, com dezenas de pessoas – em geral, jovens e negros da favela – executados pela polícia.

Aí vem a Copa no Brasil! O sonho de muitos brasileiros promete tornar-se um terrível pesadelo. E, para que tudo esteja pronto, as obras começarão em breve, aliás, já estão atrasadas. O número de famílias despejadas no país – e não será só nas cidades-sede – deve chegar à casa das centenas de milhares. Em muitos casos, despejos sem indenização e sem alternativa de moradia. Ou com os ridículos “cheques-despejo”, com um valor que não permite sequer a compra de um barraco numa encosta de morro. Além disso, as medidas de repressão e criminalização da pobreza tendem a se tornar cada vez mais bárbaras nestes próximos anos, consolidando a política de “higienização social”. Várias situações já apontam para isso: as Unidades de Polícia Pacificadora, no Rio de Janeiro; o aumento da repressão a trabalhadores informais (especialmente camelôs) em várias cidades; o impedimento de mo moradores de periferia em freqüentar espaços públicos nos centros, como ocorreu num shopping Center de Curitiba (por ordem judicial!); etc. A ordem é: a cidade para os ricos e turistas, que os pobres fiquem nas periferias!

Quem está sorrindo com isso é o grande capital imobiliário, que deverá se empanturrar com obras faraônicas, financiadas com dinheiro público, e verá seus grandes terrenos valorizarem-se absurdamente. Só para construção de estádios, o BNDES já anunciou um crédito de R$5 bilhões à disposição dos interessados. E outros bilhões virão para os empreiteiros. Para os pobres, despejos e repressão.

III. Construir a resistência

Diante deste cenário, temos uma tarefa imensa pela frente: organizar e unificar uma resistência dos trabalhadores, em escala nacional. Para evitar um verdadeiro massacre, cada tentativa de despejo deve ter uma resposta à altura; cada ataque do capital deve ser seguido de um contra-ataque dos trabalhadores afetados por esta política. Daí, a necessidade urgente de construir e fortalecer a CAMPANHA NACIONAL CONTRA OS DESPEJOS – Minha Casa, Minha Luta.

Para isso, propomos a organização de Comitês em todas as regiões do país, com o objetivo de unificar a luta contra os despejos. Chamamos todos os movimentos populares, associações de moradores, referências comunitárias e setores da sociedade civil comprometidos com a luta contra este massacre para construir conosco esta resistência.

Esta Campanha Nacional deve se estruturar sobre uma Plataforma com os seguintes eixos:

• CONTRA A POLÍTICA DE DESPEJOS E REMOÇÕES. GARANTIA DE MORADIA DIGNA PARA TODOS.

• COMBATE À REPRESSÃO E CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA. PELO DIREITO À VIDA E AO TRABALHO.

• POR UMA POLÍTICA NACIONAL DE DESAPROPRIAÇÕES DE IMÓVEIS VAZIOS E MEDIDAS DE COMBATE À ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA.

• POR UMA POLÍTICA DE CONSTRUÇÃO DE MORADIAS POPULARES, BASEADA NO SUBSÍDIO INTEGRAL, NA QUALIDADE HABITACIONAL E NA GESTÃO DIRETA DOS EMPREENDIMENTOS.

• EM DEFESA DE UMA REFORMA URBANA POPULAR.

           
          RESISTÊNCIA URBANA
FRENTE NACIONAL DE MOVIMENTOS.