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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DO HIP HOP COMO ALTERNATIVA AO SEU PROCESSO DE DEGENERAÇÃO

O futuro político de uma parte significativa da juventude negra e residentes na periferia deste país está estritamente ligado ao futuro do Hip Hop. Infelizmente esta é uma realidade. Num país de forte tradição oral e de juventude com baixa escolaridade essa perspectiva se reforça mais ainda.
Neste sentido, nossa pretensão é demonstrar que a “nova ofensiva” contra o Hip Hop tem como objetivo bloquear o surgimento de uma nova leva de artistas hiphopianos politicamente engajados. Em outras palavras, uma nova “década de 1990”, período áureo do Hip Hop brasileiro, não pode se repetir de forma alguma no país com a maior desigualdade sócio-racial do mundo. Acrescenta-se a isso, o atual contexto de luta política que se abriu no país desde as ”jornadas de junho” e que, não por acaso, foi protagonizada pela juventude. Essa é a premissa que nos apoiamos para fazer o debate com os adeptos da cultura Hip Hop no Brasil.
AOS MESTRES, UMA PALAVRINHA.
Em primeiro lugar queremos lembrar que todos os processos revolucionários do século XX aconteceram com a participação ativa da juventude. A juventude tem uma tendência a rebelião, a negar modelos, a questionar o mundo em que vivem. Não estão ainda com a ideologia das classes dominantes consolidada em suas consciências. Esse é um problema que a burguesia teve que enfrentar ao longo da história, inclusive com sua própria juventude. Esse é o problema que nós temos que enfrentar com mais segurança para entender o que está acontecendo com o Hip Hop brasileiro.
Os mestres do Hip Hop que hoje se debandam para o conformismo político e que, por cima, aconselham a juventude hiphopiana a jogar a tolha no primeiro round da luta de classe, são os mesmos que na década de 1990 expressaram o mais legitimo sentimento indignação anticapitalista da história das periferias brasileiras. Então o que foi que aconteceu?
Alguns desses artistas têm mais de 40 anos e estão preocupados em arrumar a vida e fazer seu “pezinho de meia”, afinal de contas Hip Hop não garante aposentadoria para ninguém. Esses mestres já cumpriram uma linda etapa política, fizeram pela juventude negra e favelada muito mais do que os bancos escolares fizeram. Isso, porém, não lhes dá o direito de botar para dormir quem ainda está acordando para o mundo. Não são mais jovens, como foram na década de 1990, mas nem por isso devem esquecer aquela década. Nós, ao contrário, queremos relembrá-la.
1990: A DÉCADA DO RENASCIMENTO FÚRIA NEGRA
Nunca na história deste país, desde a abolição da escravatura, a juventude negra da periferia foi politicamente tão ativa como na década de 1990. De objetos das pesquisas acadêmicas tornaram-se verdadeiros “sociólogos sem diplomas” tomando para si as rédeas de seu próprio futuro. No inicio daquela década os mais velhos tinham em média 20 anos.
A academia tentava pesquisar a periferia e se chocava com a periferia pesquisando a si própria. As canções de rap tornaram-se verdadeiras teses políticas produzidas por gente doutorada em sofrer racismo, repressão policial e desemprego estrutural. A burguesia assistia atônita a juventude negra sem escolarização debruçada nos “livros cantados” da periferia com um prazer de dá inveja aos grandes pedagogos ligados ao Banco Mundial.
Alguns chegaram mesmo a entrar na faculdade via Hip Hop. O Movimento Hip Hop do Maranhão “Quilombo Urbano”, com 24 anos de existência, talvez seja o maior exemplo desse fenômeno. Muitos jovens que foram recrutados por esse movimento das entranhas das “gangues” de rua que proliferaram em São Luís na década de 1990 hoje são profissionais da educação básica, alguns são professores de universidades, mas a maioria militantes políticos da esquerda maranhense.
Dos “livros rimados” também brotaram os livros impressos. Dezenas de artistas ligados ao Hip Hop publicaram livros nos últimos dez anos por todo o Brasil a exemplo  Ferrez, MV Bill, Dexter, Afro X, GOG, Preto Ghoez, Edurado, ex-Facação Central, Rosenverck e Hertz (Gíria Vermelha) e muitos outros. Uma “literatura marginal” impossível de existir sem a existência de um movimento que serviu de abrigo a jovens marginalizados. Em suma, a década mais reacionária do século XX viu nascer o germe de uma juventude no mínimo anticapitalista, alguns declaradamente socialista e marxistas. Só que na visão da burguesia esse fenômeno não poderia vingar por muito tempo.
A FENIX DO GUETO TERIA QUE SER DOMESTICADA
Naquela década, a de 1990, houve uma incrível perseguição ao Hip Hop. Em 1994, sob a acusação de “incitação a violência”, os grupos Racionais e MRN  seriam detidos em show no vale do Anhangabaú-SP. No final do show o público revoltado apedrejou os policiais e depredou uma viatura. Nesse mesmo ano o rapper Big Richard também foi detido pelo mesmo motivo. Em 1997 foi a vez da banda “Faces do Subúrbio” de Recife que teve seus vocalistas detidos e espancados em pleno palco sobre a mesma acusação dos demais. Em 1999, o videoclipe da musica  “Isso Aqui é uma guerra” do grupo Facção Central foi censurado por apologia ao crime. Em 2000, o videoclipe Soldado do morro de rapper MV Bill também seria acusado de apologia ao crime.
Onde tinha organização de Hip Hop militante igualmente tinham problemas seriíssimos com a polícia. Militantes do Quilombo Urbano foram informados que o Estado os considerava “um grupo de ameaça à ordem”. No entanto, quanto mais perseguidos pelo Estado, mais legitimados eram pela periferia.
É claro que favelado sempre foi um problema para o Estado, mas não um problema político de envergadura tão grande. Seria preciso quebrar as pernas de quem estava caminhando rápido demais. A fênix que renascia furiosamente precisava ser domesticada e assim foi feito. Sobre esse processo de degeneração do Hip Hop e sua cooptação, sobretudo, pelo governo de Frente Popular do PT leia o texto “Manifesto as Organizações de Hip Hop” publicado em 2004 por Hertz vocalista do Gíria Vermelha. Aqui queremos expressar o que está em jogo no atual contexto.
A NOVA ONDA É CONTRA QUEM? CONTRA O HIP HOP OU CONTRA A PERIFERIA?
A burguesia atuou no silêncio, captou para o seu projeto político uma fatia importante do Hip Hop politizado. Operação feita, resultados a mostra. Inimigos históricos se solidarizam em programas de televisão ou nos gabinetes políticos.  O fenômeno PT se reproduziu no interior do Hip Hop.
Muitos estão espantados com a rapidez do processo. Xuxa virou temática de rima improvisada. Regina Casé utiliza o Hip Hop para mostrar ao mundo que o Brasil possui “democracia racial” e “harmonia de classe”.  O programa Malhação virou vitrine para artistas de Hip Hop.
Se em 2007 Mano Brow criticava pesadamente as ostentações do jogador Ronaldo “o fenômeno” ao afirmar que “o Ronaldinho comprou uma Ferrari de 500 mil dólares, 600 mil dólares. Só os juros disso aí... morou, mano? Mete um seqüestro nele, dá um meio de sumiço nele pra ver se ele não pára com essa putaria” (Revista Trip). Hoje, porém, Ice-Blue, vocalista do Racionais, aparece no videoclipe “Estilo Gangstar” ao lado do mesmo Ronaldo, cercados de carrões e mulheres.  Já Edy Rock, também do Racionais, disse em entrevista a TV Globo que “rap é negócio”.
Em meio às convulsões sociais que varreram o país nos últimos três meses, o Hip Hop pinta em cores harmônicas a relação entre a periferia e os jardins. Nunca o Hip Hop foi tão requisitado pela mídia comercial burguesa como nos últimos meses. Algo estranho?
Quem está assustado com tudo isso, se prepare, a ofensiva vai aumentar. Os ataques a periferia estão se intensificando por que a periferia não foi a grande protagonista das jornadas de junho, e sim um setor médio da classe trabalhadora, os mais escolarizados. De julho para cá um setor importante do movimento sindical também entrou em cena, tendo a CSP Conlutas a frente. O Hip Hop que tanto decantou a revolução, travou na hora “H”.  E como o governo teve que fazer pequenas concessões aos setores que lutaram alguém teria que pagar o pato; sobrou para a periferia.
A cooptação do Hip Hop é apenas uma expressão dos ataques à periferia. A burguesia que coopta é a mesma que massacra. A burguesia que está batendo mais forte na população negra é a mesma que afaga com mais carinho o Hip Hop. Enquanto a multidão trocava os programas de televisão pelas ruas, o Hip Hop trocava às ruas pelos programas de televisão. Já a polícia subia o morro para aumentar a tradicional carnificina de gente negra. A favela, sem organização política, pagava pela ousadia da juventude e da classe trabalhadora organizada.
O processo de cooptação do Hip Hop foi acelerado devido às jornadas de junho. Seria preciso segurar a favela na imobilidade política, para que a mesma não explodisse com a multidão.
Por outro lado, alguns grupos de Hip Hop estão sendo processados. Esse é o caso do grupo Irmandade de Teresina-PI e o grupo Apologia do Gueto de Fortaleza-CE.

OS JOVENS SEGUEM OS JOVENS
Hoje os artistas mais glamourizados pela mídia são os mais jovens. A matemática não é exatamente quantos Racionais a burguesia pode cooptar, mas quantos Emicidas eles podem fabricar. O fator juventude tem mais peso. Não há muita diferença política entre as músicas do Emicida e do Racionais. Os discursos também convergem.
Sendo assim, para a burguesia já não se trata tanto de ganhar o Racionais, o GOG, o Ferrez, etc., pois esses há muito tempo mudaram o discurso. A questão central é impedir uma nova “década de 1990” no Hip Hop.  E essa nova onda só seria possível com a juventude à frente.  A Globo sabe que o significa para o seu projeto político a presença do DJ Will, filho do DJ KLJay (Racionais), em seus programas.
O “Funk”, com suas proporções devidamente guardadas, também está passando pelo mesmo dilema. Os artistas do glamour midiático são quase todos jovens. Ora, o Racionais, GOG, Thaíde, Facção Central criaram uma legião de jovens seguidores na década de 1990 por que também eram jovens. No geral, os jovens seguem os jovens.
Hoje são poucos os artistas de rap politizados do Brasil com idade entre 18 a 25 anos que possuem influencia de massa. Os jovens seguem os jovens, por isso não são novos GOG e nem novos Brown que estão surgindo, mas uma legião de Emicidas. Uma legião de artista que não querem saber de debate político estratégico. Pensam o rap como negócio e como todo novo produto precisa de marca, a burguesia está denominando estes novos artistas de “rap universitário”. Um eufemismo para dizer que esses são mais inteligentes do que aqueles que se mantém na estética política da favela.
 Não ousariam falar isso na década de 1990. Naquela década não ousaram dizer que o Gabriel Pensador era “rap universitário”. Hoje estão mais a vontade, pois no próprio meio do Hip Hop têm aqueles que defendem sua elitização. Outros dizem que o Hip Hop deve servir para gerar emprego. Triste ilusão: fábrica aberta, empresa falida.  
Contudo, há um perigo eminente para a burguesia. A maioria desses jovens irão se decepcionar ao perceberem que a porta do sucesso não é tão larga quanto se pensa. São jovens e podem mudar o pensamento e a postura. Por isso, já não se trata mais de regenerar os mais antigos, mas de rejuvenescer o Movimento. E aqui entramos no ponto mais importante: o da construção de Movimentos Organizados com forte peso juvenil.
INDIVIDUALISMO CULTURAL OU ORGANIZAÇÃO COLETIVA: O DILEMA DO HIP HOP E DA PERIFERIA
Não dá para jogar para cima de grupos como o Racionais, GOG, Emicida a responsabilidade pelo processo de degeneração do Hip Hop brasileiro. Esses indivíduos são artistas e não militantes, ou seja, não são artistas militantes.  Afinal de contas eles estão traindo o que? Qual projeto? Qual programa? Vamos ficar cobrando que o Brown de 42 anos seja fiel aos ensinamentos do Brown de 20 anos? Na ausência de organizações políticas a juventude segue os homens individualmente. Infelizmente foi isso que aconteceu.
Brown não tinha programa e nem projeto coletivo, apenas um discurso muito inteligente, radicalizado, racial e classista. Uma legião de jovens abraçou isso, nada mais. O problema é que as pessoas mudam. Aliás, mais do que mudar, os homens, inevitavelmente, morrem! O que pode ficar então para as futuras gerações? As organizações e os seus programas ficam. Se vão atender os anseios de suas bases sociais é outro debate.
O Racionais é um grupo, não é uma organização. Não dava para enfrentar uma das burguesias mais poderosa do mundo só cantando rap politizado. A classe/raça que criou um dos mitos mais importante do século XX, o da democracia racial, jamais permitiria que uma juventude sem programa e sem projeto político estratégico mudasse a estrutura do Brasil.
A maioria dos mais antigos apostaram todas as suas fichas no PT. A decepção com o governo de Frente Popular (PT/PMDB) e com a tradição petista enlameada pelos sucessivos casos de corrupção empurraram esses artistas para a desilusão política. A descrença política no PT destruiu a crença na capacidade política da própria periferia. Não se propuseram construir movimentos organizados por que depositaram todas as suas esperanças no governo do PT. Não percebem como o PT os deixou sem chão e sem discurso. O governo do PT é um governo com um programa claramente burguês, apesar do apoio popular que tinha até as “jornadas de junho”.
Se o PSDB atacou o Hip Hop e a periferia, um como extensão do outro, o PT continuou atacando a periferia, porém botando o boné do Hip Hop na cabeça do governo.  
Basta verificar os índices de homicídios entre jovens negros para constatar o quanto o vermelho dos 10 anos da estrela petista na periferia é sinônimo de sangue derramado da juventude negra. No período de 2002 a 2012 divulga-se no Brasil uma quase estagnação nos dados sobre homicídios. Acontece que essa situação decorre de uma queda aproximadamente 33% entre os jovens brancos, enquanto entre os negros cresceu 23,4%. A diferença é 56, 4%.  Entre os 12 e 21 anos a taxa entre os negros sai de 2,0 homicídios para cada 100 mil habitantes para 89,6, aumentando em 46 vezes. Em Alagoas, a possibilidade de um jovem negro ser morto é mais de mil vezes superior ao de um jovem branco. O PT, simplesmente, deixou os jovens negros da periferia sem direito a juventude. Para isso foi importante amordaçar o Hip Hop mais politizado do mundo.
O próprio Banco Mundial expressou em seus documentos a preocupação com o crescimento das favelas e da exclusão social dos jovens na América Latina. Pense esses dois problemas no Brasil sem ligá-los suficientemente ao Hip Hop? Simplesmente impossível!
Certamente jovens artistas engajados e com forte influência de massa surgirão no Brasil. O debate em aberto é se teremos condições de avançar do individualismo artístico para a organização coletiva.
CONTRUIR UMA ORGANIZAÇÃO NACIONAL DE HIP HOP COM UNIDADE NA POLITICA: UMA TAREFA PARA ONTEM
Atuar em movimentos não significa que vamos homogeneizar o Hip Hop. Pelo contrário, a cultura é naturalmente avessa à uniformização por que ela é resultado da relação dinâmica entre os homens e as classes sociais. Por isso, sempre que a mídia comercial burguesa tenta padronizar uma estética cultural surgem novos estilos antiestéticos. A unidade possível entre os artistas é aquela que se dá no campo político e não na estética.
Um artista orgânico é um intelectual orgânico, conforme explica Gramsci. E é orgânico por está organicamente ligado a sua classe. Ele produz cultura conscientemente para sua classe. No entanto, o elemento que os ligam organicamente a sua classe são os movimentos e os partidos.
Alguns honestamente, mas, equivocamente, defendem a não politização da cultura e sua independência política. Nós não pensamos assim. Queremos que as organizações de Hip Hop sejam suprapartidária sim, mas, a independência que defendemos é em relação aos governos, aos empresários e a mídia comercial burguesa. O Hip Hop que tanto jurou independência política a periferia está sendo instrumentalizado pelos governos e pelo grande capital. Nesse sentido queremos avançar no debate apresentando o Movimento Hip Hop Militante “Quilombo Brasil” que foi fundado em 2010 e que, ainda em construção, pretende ser uma das alternativas para a juventude que busca se organizar em torno da cultural Hip Hop.
Assinam este documento
Movimento Hip Hop “Quilombo Brasil”
Movimento Hip Hop do Maranhão “Quilombo Urbano”
Movimento Hip Hop de Chapadinha-MA “Quilombo Urbano”
Movimento Hip Hop do Ceará “Cangaço Urbano”
Movimento Hip Hop de Caxias-MA “Ministério das Favelas”
Movimento Hip Hop de Alagoas- “Tropa de Zumbi”
Movimento Nacional Luta Popular

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