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sexta-feira, 4 de março de 2011

O MAPA DA VIOLÊNCIA DA JUVENTUDE E O EXTERMÍNIO DA JUVENTUDE NEGRA NO MARANHÃO

Prof. Rosenverck E. Santos
Foi lançado em Brasília, na quinta feira dia 24, pelo Ministério da Justiça, o Mapa da Violência 2011 – Os Jovens do Brasil. Sob coordenação do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz o estudo demonstra o grau de extermínio porque passa a juventude negra e pobre, moradora das periferias dos centros urbanos, neste pais.
No maranhão o salto do extermínio da juventude pobre e negra foi brutal – mais de 300% de aumento da violência. O que fica explicito no próprio documento em questão:
“Observando mais atentamente as Unidades Federadas, ficam evidentes modos de evolução altamente diferenciados, com extremos que vão do Maranhão, Pará ou Ceará, onde os índices decenais se elevam drasticamente”, ... Nesse sentido, a capital do Maranhão, São Luis, sai do 23º lugar em 1998 para o 11º em 2008.
O Número de Homicídios na População de 15 a 24 anos por UF e Região no Brasil de 1998/2008 demonstra que o Maranhão saiu de 1998 de 74 homicídios para 455 homicidios em 2008, ou seja, um aumento alarmante e assustador, principalmente em se tratando da população negra, como diz o documento:
“Efetivamente, de 2002 a 2008, para a População Total:
• O número de vítimas brancas caiu de 18.852 para 14.650, o que representa uma significativa diferença negativa, da ordem de 22,3%.
• Já entre os negros, o número de vítimas de homicídio aumentou de 26.915 para 32.349, o que equivale a um crescimento de 20,2%. Com isso, a brecha que já existia em 2002 cresceu mais ainda e de forma drástica...ou seja, morrem proporcionalmente 67,1% mais negros do que brancos”.
Poderia continuar cintando milhares de dados e recortes de raça/classe/gênero que só comprovariam o extermínio da juventude negra e pobre. Mas esses dados podem ser vistos no próprio documento disponibilizado – sem nenhuma vergonha na cara – pelo Ministério da Justiça.
Entretanto, isso evidentemente não causa espanto pra quem vive nas periferias do Maranhão que cotidianamente observam seus jovens sendo vitimados pela ausência completa de políticas publicas na educação, saúde, lazer, cultura, trabalho e o que mais queiramos citar.
Exceção feita, a presença sempre ostensiva dos aparelhos repressivos do Estado como a Policia que não apenas é uma das principais responsáveis diretas pelo assassinato de milhares de jovens – principalmente negros – como são responsáveis indiretos, junto a outros órgãos do Estado na medida que potencializam, a partir de inúmeros métodos, a guerra interna na periferia causando mortes e violência.
No entanto, o que é mais ridículo e trágico e assistir as desculpas esfarrapadas dos órgãos de (in)segurança, em especial do Secretário de Segurança do governo Roseana que atribui o aumento da violência ao uso e difusão das drogas. Mais uma vez – e, essa historia é antiga – se culpa a vítima pelo violência que sofre.
Como já escrevemos inúmeras vezes, o Brasil historicamente tem uma política de extermínio da juventude negra que tem suas raízes na escravidão e que se funda teoricamente com o nascimento da Republica que associa princípios escravistas remanescentes da colônia e do império com o discurso raciológico, capitalista e eugenista do início da República.
Era necessário embranquecer este país fenotipicamente e isso deveria ser realizado com qualquer arma que estivesse na mão. A política era clara e habilmente manobrada para conquistar neutralidade e legitimidade.
Como já escrevi em outra oportunidade: “A equação é simples. Retira-se tudo: educação, saúde, esporte, direitos sociais, trabalho, lazer... empurra para a marginalidade....retira-lhes a identidade, o nome, a história, as referências, a dignidade e os renomeia: - bandidos. Depois disso: se mata, se extermina... se acaba com o perigo negro da juventude brasileira. Uma política que tem história e que se renova; que tem múltiplas causas e justificativas; que tem diferentes contextos e territórios. Mas o resultado final é sempre o mesmo: o extermínio da juventude negra”.
E depois ainda tem mais: se culpa as vítimas pelo seu extermínio. Antes, porque não queriam trabalhar, porque eram inferiores...hoje porque são usuários de droga....como se a fabricação, controle e organização do tráfico de droga não tivessem origem nos condomínios de luxo, na elite brasileira e nos gabinetes com ar condicionado como política social e coletiva bem definida de extermínio e incentivo da guerra interna na periferia.
A droga - na sociedade capitalista, com a forma que adquire - não é problema individual; é política coletiva e social de dominação e implantação de um projeto de país.

Precisamos, portanto, de um outro modelo de sociedade e nação, para que os jovens pobres e negros no Brasil possam realmente ter sua juventude conquistada e, assim sendo, não morram muito antes de contribuírem para a contrucão de uma sociedade igualitária – esse sim o real perigo que assuta as elites desse país.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Violência, Racismo, Miséria, Segregação, 122 anos da Falsa Abolição

No dia 13 de maio de 1988 era assinada a lei auréa que oficializava o fim da escravidão que perdurou por quase quatrocentos. O Brasil foi o primeiro país da América a edificar e o último a abolir a escravidão. 122 anos depois constatamos que os dados sobre as condições de vida dos afro-brasileiros não são nada animadores. Favelinização, desemprego crônico, encarceramento e repressão policial, são alguns dos sintomas do modelo elitista e excludente de como se deu a abolição no Brasil. O processo deu-se de forma lenta e gradual. Diversas leis foram sendo criadas desde 1850( quando oficialmente foi proibido o trafego negreiro), com o objetivo de deslocar a luta contra a escravidão da ação direta dos negros para a institucionalização. A lei do Ventre Livre e a Lei do sexagenários era um prenúncio das pretensões das nossas elites: garantir a transição do trabalho escravo ao trabalho livre sem modificar radicalmente a estrutura em que se assentou a formação da sociedade escravista em nosso país. Mas é na lei da terra de 1851 que encontramos o todo substrato político das elites brasileiras no sentido de garantir uma transição excludente, elitista e racista para o Brasil de capitalismo dependente. Com essa lei a obtenção da terra deixa de ter como critério os serviço prestados ao Estado brasileiro ( o que implicava proceder um processo de reforma agrária ) e passa a ser adquirida somente mediante a compra, que em outros termos significava consolidar e ampliar o latifúndio e distanciar o negro ex-escravo de qualquer posse da terra.

Num outro extremo, temos uma politica racializada por parte do novo Estado republicano no sentido de incentivar a imigração branco-européia para o Brasil sobre o pretexto de que somente estes poderiam contribuir com o processo de modernização da sociedade brasileira. Entretanto o que se camuflava por trás deste discurso “modernizador” era a política de embranquecer o Brasil e evitar que o ingrediente de quase quatrocentos anos de conflitos raciais no Brasil se prolongasse na nascente indústria brasileira pautada no trabalho assalariado. Como bem assinala Moura (1988) a população negra do pós abolição era vista como uma massa compacta, com uma “franja marginal” excluída não só da propriedade dos meios de produção como proletariado, mas também da possibilidade de venda da sua força de trabalho.

Um outro componente bem conhecido pela população afro-brasileira que entra em cena para garantir a manutenção da nova ordem excludente é o fortalecimento do aparato policial. Diversas revoltas e manisfestações populares que a fase de transição analisada, como Canudos, Contestado, a Revolta da Chibata, a Revolta da Vacina, foram impiedosamente reprimidas pelo braço de chumbo do Estado republicano brasileiro.

Portanto, acreditamos que é no movimento da História que devemos buscar as raízes dos problemas que a população afro-brasileira enfrenta na contemporaneidade. Foram mais de três séculos de escravidão, de trabalho não remunerado, sem escolarização ou acesso aos bens culturais e materiais que eles próprios contribuiriam direta ou indiretamente para alicerçar.

Pois toda a politica de marginalização, criminalização e exclusão cultural e material da população negra tem se mantido nas ultimas décadas. A politica fundiária e repressiva de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva é a prova mais cabal de que transição do Estado ditatorial para o democrático que se deu nos últimas duas décadas tem características similares a transição do Brasil escravocrata ao de capitalismo dependente. Modificaram os atores mais o palco são os mesmos, se entendermos palco como estrutura social. Sem acesso a terra no campo e sem emprego nas cidades, a população negra continua sendo os alvos preferenciais do seu braço armado. Segundo dados de 2004, 90% do credito agrário no Governo Lula é direcionado ao agronegócio enquanto os pequenos agricultores endividam-se e perdem a suas terras. A imigração é quase inevitável para as cidades onde o desemprego, o crime, a repressão e as cadeias os aguardam ansiosamente. E é neste universo que a população afro-brasileira se encontra.

Assim entendemos que há uma dívida social em aberto do Estado e das elites brasileiras para com a população negra. Inverter prioridades é deixar de pagar a divida externa e interna a banqueiros e ao FMI e assumir o compromisso de reparar as populações afro-brasileiras que nunca forma indenizados pelos crimes do quais foram vitimados por esse mesmo Estado que hoje atende somente os interesses do capital nacional e internacional.

Movimento de Hip Hop Organizado do Maranhão "Quilombo Urbano"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Hip Hop Quilombola na Mira da PM’? CHEGA!!!

Depois de mais uma sexta-feira de tentativa de intimidação de nossos militantes no Quilombo Cultural Lagoa Amarela por parte da Policia Militar da governadora Roseana Sarney resolvemos lançar um manifesto que será entregue a referida governadora na próxima quinta feira (15/10). Publicamos abaixo o documento na integra e solicitamos a solidariedade de todas as organizações políticas que combatem a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais.

SÃO LUÍS 14 DE OUTUBRO DE 2009

EXCELENTÍSSIMA SENHORA GOVERNADORA ROSEANA SARNEY

Em setembro de 2008, durante as atividades de preparação da III Marcha da Periferia, evento este que nós do Movimento Hip Hop Organizado do Maranhão Quilombo Urbano, juntamente com outras entidades do movimento popular e sindical realizamos desde 2006 com a juventude de nossas comunidades pobres, tomamos a iniciativa de ocupar a Praça da Criança no centro histórico de São Luis para realização de atividades políticas e culturais de Hip Hop com a juventude que para ali se direcionam. Antes dessa ocupação, ocorrida no dia 05 de setembro, dia da raça, a Praça da Criança se encontrava completamente abandonada pelo poderes públicos, mas a partir dessa iniciativa, de jovens negros e pobres excluídos cultural e economicamente do turismo econômico que ali se instalou, a Praça da Criança passou a ser um dos espaços públicos mais “vivos” do “Projeto Reviver”. Batizada de “Quilombo Cultural Lagoa Amarela” em homenagem ao herói afro-maranhense Negro Cosme, nela é possível visualizar diversos grafites, a arte visual do Hip Hop, com mensagens que refletem a situação e os anseios da juventude negra e pobre, além das apresentações de danças, grupos de rap, exibição de vídeos e apresentações de artistas de outros gêneros culturais. Nesse espaço já ocorreram inúmeras atividades políticas de grande repercussão, a exemplo do ato em solidariedade ao povo do Haiti, país este que no momento se encontra ocupado pelas forças militares da Organização das Nações Unidas (ONU) lideradas pelo Brasil, a MINUSTAH.




A marca principal desses eventos é o fortalecimento dos laços de sócio-afetividade entre a juventude de periferia. Alguns meses após a ocupação dessa praça, o então secretário de cultura do governo de Jackson Lago, Joãozinho Ribeiro, em reunião com alguns de nossos militantes, propôs uma parceria entre nossa organização (Movimento Hip Hop Quilombo Urbano) e a secretaria de cultura do Estado para realização das atividades políticas e culturais. Na oportunidade agradecemos a referida proposta, tendo em vista que o objetivo inicial do projeto Quilombo Cultural Lagoa Amarela era de completa autonomia e independência em relação ao poderes públicos, nossa única exigência seria a de estruturação da praça com construção de banheiros públicos, bancos e iluminação, o que infelizmente até o momento não ocorreu. Mesmo com a negativa de nossa parte, durante todo esse período nunca fomos molestados pelo governo anterior nem muitos menos pela sua força policial, pelo contrário, fomos diversas vezes elogiados pela iniciativa de ter transformado um espaço “sem vida” em um ambiente onde a juventude de periferia se encontra todas as noites de sexta feira para permutar informações e manifestar suas angustias cotidianas e seus desejos de transformação de suas realidades sócio-estruturais. No entanto, nos últimos meses, essa realidade tem se transformado radicalmente. Em nenhum ambiente cultural, público ou privado, do Projeto Reviver, a Polícia Militar tem atuado com tanta repressão como no “Quilombo Cultural Lagoa Amarela”. Para se ter uma idéia, só nas últimas três sextas-feiras foram três “batidas” com ameaças de detenção dos organizadores dessa atividade, de apreender os nossos aparelhos de áudio e vídeo, de desrespeito na hora das “revistas” do público presente, de caracterizar a atividade de “festinha” e seus participantes de “marginais”. No dia 02 Setembro dois policiais militares, o soldado Augusto e sargento Neves, chegaram a alegar que iriam chamar a Tropa de Choque para terminar com a atividade por que dali, segundo eles, teriam saído duas pessoas esfaqueadas e que estavam passando muito mal no hospital Socorrão, quando na verdade nunca ocorrera nenhum incidente entre os jovens que freqüentam aquele espaço cultural. Ao contrário, como deve ser de conhecimento de vossa excelência, nesse mesmo dia, 02 de setembro, um policial a paisana teria ceifado a balas a vida de uma pessoa em uma conhecidíssima casa de evento do Projeto Reviver, mas, ironicamente, na semana seguinte a esse trágico acontecimento, uma viatura comandada pelo policial militar Valdir e outros três policias militares sem insígnia de identificação, se fizeram presente no Lagoa Amarela com as mesmas práticas e ameaças de seus antecessores. É de causar estranheza e indignação o fato de que ao lado do Lagoa Amarela funciona uma casa de eventos freqüentada por jovens brancos de classe média, que para endentar aquele espaço fazem uma fila “quilométrica” e a polícia não faz uma única investida, não pede documentos e não realiza “revistas”. O que fica explicito nisso tudo é que a policia ali se faz presente para mostrar a juventude de periferia, em sua maioria negra, que o turismo econômico do Projeto Reviver não os autorizam a freqüentar aquele ambiente e nem muitos menos realizar atividades políticas e culturais ao lado de uma concentração de jovens brancos de classe média. Certamente não somos contra que a polícia realize seu “trabalho” nesse ou qualquer outro espaço, mas não podemos admitir que indivíduos ou grupos de indivíduos tenham tratamento diferenciado em razão de sua condição étnico-social ou da manifestação cultural a qual se identificam. Temos clareza de que a violência é hoje uma realidade presente entre qualquer grupo social, principalmente entre a juventude que residem nas periferias, pois não são assistidas por políticas públicas, e que, por essa razão, nossas atividades não estão isentas de tais manifestações. Mas seria de admirar, e não de criminalizar, uma atividade que após 14 messes de existência nunca ocorrera um único incidente, a não ser os que foram protagonizados pela própria Polícia Militar, o que é extremamente lamentável. Por outro lado, entendemos que o que falta a juventude de periferia é uma política sócio-estrutural que envolva geração de emprego e renda, educação de qualidade, lazer e cultura que possa amenizar seus sofrimentos, pois até então a única política que os sucessivos governos têm oferecido a essa camada social é a repressão policial, que por sua vez tem demonstrado a sua completa ineficiência no combate a violência. Por fim, solicitamos desse governo a concessão, até o fim do seu mandato, para que possamos continuar a realizar tais atividades sem interferência dos poderes públicos e sem a ação truculenta e preconceituosa da polícia. O Projeto Reviver dever ser, antes de tudo, entendido como um patrimônio histórico construído por pessoas negras acorrentadas aos grilhões e submetidas aos chicotes das elites eurocêntricas, realidade essa que nós descendentes afro-maranhenses, brancos pobres da periferia e militantes de organizações do campo democráticos não mais permitimo-nos submeter.

Cientes de Vossa compreensão e atendimento a nossa reivindicação,
Agradecemos antecipadamente.

Movimento Hip Hop Organizado do Maranhão “Quilombo Urbano”
Movimento Hip Hop Militante “Quilombo Brasil”

domingo, 30 de agosto de 2009

Uma semana para ficar na memória da cultura carioca*

O Haiti é aqui? O Haiti não é aqui?
No mesmo dia da realização da audiência pública que debateu o Funk como cultura e referendou um ano de lutas da APAFUNK, outro evento, realizado na caída da noite, também é digno de entrar para história das manifestações culturais do rio de janeiro: o hip-hop pela retirada das tropas brasileira do Haiti, organizado pelo coletivo Lutarmada de Hip-Hop.
O papel cumprido pelas tropas "da paz" no Haiti, depois de 5 anos de ocupação, não escondem atrás do nome a sua verdadeira missão: controle e gestão da miséria e genocídio e extermínio do povo negro. Não à toa, os soldados brasileiros lá treinados vem continuar seu combate aqui na guerra desinfreada do governo do estado do rio de janeiro contra as comunidades. E não à toa, por óbvio, os mesmos nomes para mascarar os acontecimentos: "paz, pacificação e pacificador".
Entre a apresentação dos rappers, falas dos companheiros e companheiras de luta, vídeos e batalha de b-boys e b-girls marcaram a emoção da atividade. O reconhecimento implícito da mesma dor e da mesma realidade que além mar assola todos os países de maioria inegavelmente negra, custurou todas as falas e alinhavou o evento. Lágrimas de sangue, uma das últimas músicas cantadas, marcou essa compreensão.
Para quem acompanha ou acompanhava o movimento hip-hop do Rio de Janeiro, muito emoção e felicidade ficaram nítidas. Um hip-hop combativo, altamente engajado e militante, com fortíssima qualidade musical estava alí expresso. B Negão relatou, por exemplo, as várias emoções que teve durante a atividade e como foi aquele discurso que o trouxe para o movimento hip-hop, antes de vários de sua geração se perderem pelos caminhos do mercado.
Lembrando Zumbi, Dandara, Lamarca e Guevara, Delirio Black, também do coletivo Lutarmada de Hip-Hop, homenageou todos os que transformaram sua vida em luta. E relembrou a necessidade, mais que óbvia diante daquele encontro, de lutar: "se a nossa morte foi declarada, vamos lutar e viver todos os dias com dignidade".
Essas vozes, de certo, foram escutadas no Haiti. Pois não são diferentes - e por isso o recrudescimento do extermínio e do genocídio - de todo o povo que resiste em toda a parte do mundo, seja na áfrica, no caribe ou na américa latina, por outra forma e vida e de sociedade. São as vozes daquele que não se calam e cantam e dançam a necessidade de liberdade: "Liberdade, palavra que o sonho humano alimenta: não há ninguém que explique, não há ninguém que não entenda".

* Isabel Mansur - para Gaspa, Wesley e todos os companheiros e companheiras que lutam, sonham e cantam.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

CUFA, LULA E GLOBO: TUDO A VER.... NA OCUPAÇÃO IMPERIALISTA DO HAITI.

Após uma revolta escrava ocorrida no final do século XVIII, o povo preto haitiano, escravizado pelo colonizador francês e seus descendentes, conseguiu libertar-se. Os brancos que sobreviveram a essa rebelião foram obrigados a fugir para a França que, em 1804, reconheceu a independência daquele país.
O exemplo de uma nação emancipada em decorrência de uma rebelião da classe subalterna não poderia se espalhar pelo resto da América, que ainda vivia sob o sistema escravista. Desde então, esse pequeno país da América Central, é vítima de ataques constantes, velados ou declarados, dos países imperialistas, principalmente dos EUA, até os dias atuais.
Com uma população vivendo na miséria, o povo do Haiti se revoltou em defesa de sua sobrevivência, foi às ruas em grandes protestos, saques, fazendo até greves gerais. No início de 2004, aconteceu uma intervenção do governo dos Estados Unidos, forçando o então presidente (Aristide) a renunciar e deixar o país. O fato de o governo Lula está interessado em ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU faz com que esteja pronto a atender qualquer pedido desta organização. E se aproveitando disso, a ONU pede para que o Brasil envie tropas para sufocar a revolta popular.
Em 2005 a SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), sob o comando da então ministra Matilde Ribeiro – aquela que gastou R$ 171.000 do nosso dinheiro em futilidades como salão de beleza, free-shoop, entre outras – convidou organizações de Hip Hop de integridade negociável para preparar em conjunto a Campanha Pense no Haiti, Zele pelo Haiti, com shows, seminários e arrecadação de material escolar. Os grupos de Hip Hop comprometidos com a luta dos povos oprimidos entenderam que essa campanha, assim como o jogo da seleção brasileira de futebol, pretendia maquiar o verdadeiro caráter da invasão - chamada de Força de Estabilização. Não vemos verdade nas intenções pacificadoras de uma Organização das Nações Unidas que permitiram a invasão do Iraque pelos EUA, e apesar dos apelos, se negou a enviar suas tropas para Ruanda, permitindo os Htus matarem 800.000 tutsis em 100 dias (8.000 assassinatos por dia).
No momento em que uma delegação haitiana viaja o Brasil, estado por estado, para denunciar as atrocidades cometidas pelas forças de ocupação da ONU, lideradas pelos militares brasileiros, o rapper MV Bill apareceu no Domingão do Faustão propagando as “benesses” da invasão militar naquele país. A aparição super-anunciada de MV Bill no Faustão, no dia 12/07, foi simplesmente desastrosa. MV Bill defende a ocupação militar do Haiti! Para ele as criancinhas do Haiti ficam alegres quando vêem as tropas de ocupação! Sabemos que MV Bill não é tolo, não é desinformado, talvez mal intencionado, pois para a Globo ele é hoje um grande líder político. Aliás, ele muito bem sabe quem é a Globo, aquela emissora que “mostra os pretos chibatados pelas costas”, conforme expressa uma de suas antigas músicas. Mas os pretos do Haiti também são pretos, são pobres, são favelados, e são chibatados pelas costas. MV Bill negou a existência de grupos de rap no Haiti dizendo que não os encontrou por que o país é muito pobre. Mas o rap não é a música da favela? De certo MV Bill teve que negar o rap haitiano tal como a Globo há muito tempo tenta ofuscar o contestador rap brasileiro. Para essa emissora os maiores artistas do rap sempre foram Gabriel o Pensador, Marcelo D2 e agora MV Bill. Quem não lembra que antes de MV Bill aderir a Globo, essa emissora o perseguiu acintosamente? Disseram, no Jornal da Globo, que o clipe “Soldado do Morro” era só “ Armas, Drogas e música mal feita”. Mas num passe de mágica “global” MV Bill passou de “bandido musical” ao bom menino, da boa música, parceirão da compromissada Rede Globo, via “Criança Esperança”. Para obter esse status global MV Bill teve que se desculpar sobre as criticas outrora feitas ao “Criança Esperança” e à própria emissora. . Em seu Site MV Bill e a CUFA também dizem-se favoráveis a ocupação dos morros cariocas pelo B.O.P.E. com algumas ressalvas. Já há alguns dias a Cidade de Deus, tão cantada por MV Bill, está ocupada pela PM, que, de acordo com relatos de moradores, tem lançado mão de práticas autoritárias como proibir que jovens circulem pela favela com cabelos pintados de amarelo, entrarem em algumas casas e abaixarem os volumes dos aparelhos de som, vasculharem aparelhos de MP3 para ver se encontram algum Funk, a musica proibida pelas autoridades fluminenses. E desde então, nenhuma declaração do nosso “herói”, pelo menos em meios de grande repercussão, como num Domingão do Faustão.
Tudo isso demonstra que a CUFA é hoje um braço do Estado e da burguesia na favela. Sua parceria com organismos imperialistas como o Consulado dos EUA e o Banco Mundial não é à toa. Eles, juntos com outras entidades e empresas financiaram golpes e mais golpes militares na América Latina, ao mesmo tempo em que financiava também movimentos sociais pró-imperialistas. No Maranhão a CUFA encabeçou um Encontro de Hip Hop tirado da cartola pelo governo para se contrapor as atividades da Marcha da Periferia organizada pelo Quilombo Urbano (ver Governo e CUFA versus 3ª Marcha da Periferia) e na Cidade de Caxias se juntou a TV Difusora ligada ao grupo do senador Edson Lobão para organizar uma batalha de break no mesmo dia em que o grupo Ministério das Favelas (MINFA) realizaria a sua tradição batalha break, já em sua sexta edição. A batalha organizada pelo MINFA trazia como tema “Negro Cosme” o herói da revolta da balaiada. Na semana seguinte a essas atividades a prefeitura desta cidade mandou confeccionar uma cartilha exaltando Duque de Caxias, assassino de Negro Cosme. O apresentador da Batalha da Difusora, era o coordenador da CUFA-MA , conhecido como Billy.
“Se amanhã uma guerra estourar sei que lado vou estar” dizia em uma das músicas o MV Bill pré-global. Mas a guerra estourou no Haiti, nos morros do Rio de Janeiros, nas periferias brasileiras, o governo Lula criou a Força de Segurança Nacional paralelo a invasão do Haiti, e de que lado MV Bill ficou? Do mesmo lado que o mestiço Domingo Jorge Velho – o assassino de Zumbi - ficou quando a revolta negra estourava nas senzalas resultando em construções de quilombos. Claro que a CUFA não vai pegar em armas para assassinar os pretos com fazia os capitães do mato, ela apenas legitima os assassinos de nossa gente. Quando lançou o vídeo Falcões Menino do Trafico, que não mostra que são os grandes traficantes, a Globo elogiou e anunciou: comprem! Comprem! E logo em seguida lançou uma infinidade de programas que apresenta ela, a Globo, salvando vidas de crianças pobres e pretas, divulgando artistas pobres e pretos, a exemplo do programa Central da Periferia, enquanto por outro lado detonava com a política de cotas e exigia que os governos diminuíssem seus gastos sociais. MV Bill legitima a Globo e as forças imperialistas como única via de salvação dos favelados, quando são eles na verdade os responsáveis pelas condições de existência das favelas que cresce assustadoramente em todo o mundo. MV Bill e a CUFA “tá junto e misturado” com a burguesia, então não serve pra favela!
De nosso lado, estamos dispostos a cooperar com qualquer iniciativa de solidariedade ao povo haitiano, desde que ela respeite a sua luta, a sua auto-determinação. Não caímos no engodo de que as tropas brasileiras lá estão para controlar a desenfreada violência das gangues marginais locais. Para isso basta entendermos que todo individuo ou grupo que luta contra uma classe dominante está sujeito a esses rótulos desqualificantes como no caso das FARC - taxada de quadrilha de traficantes – ou mesmo nossos heróis e heroínas que deram suas vidas lutando contra a ditadura civil-militar brasileira, mas que as autoridades e as grandes corporações de comunicação à eles se referiam como assaltantes, seqüestradores e terroristas.
Nós pensamos no Haiti e defendemos que zelar pelo Haiti é, também, através da nossa arte, gritarmos pela retirada das tropas brasileiras daquele país. E por esse manifesto, convidamos grupos, posses, crews, organizações, B. Boys/Girls, graffiteiros/as, MCs e DJs para, juntos, construirmos uma campanha de mobilização para exigir do governo brasileiro a desocupação do Haiti, retirando já o seu exército de lá.
Todo apoio a resistência do povo pobre do Haiti !
Fora as Tropas de ocupação!!!!!
Movimento Hip Hop Militante "Quilombo Brasil"

terça-feira, 14 de abril de 2009

MANIFESTO “PELO FIM DA GUERRA INTERNA NA PERIFERIA”

Agente vive se matando irmão, por quê?
Não me olhe assim eu sou igual a você! (Racionais Mc,s)


Você sabe quanto vale a vida de um jovem negro igual a você neste país? Não? mas os playboy’s sabem, sua vida não vale nada irmão! Nos últimos anos o capitalismo tem nos mergulhado num mar de sangue como nunca visto antes. Se não bastasse a repressão policial, temos nos envolvidos numa “guerra interna” sem fim, de rua contra rua, quebrada contra quebrada, bairro contra bairro e morro contra morro. Mas, nada disso tem ocorrido atoa. Além de nos arrancarem o direito à educação, saúde, moradia, lazer e trabalho, os playboy’s não arrancaram também os olhos e o desejo de viver. Manipularam nossas consciências de tal modo que não conseguimos ver no magnata de gravata, que desvia milhões de reais dos cofres públicos, como nosso inimigo. O inimigo, infelizmente, mora ao lado, ele é preto, é pobre, é favelado. Como então reagir se estamos divididos e com o canhão apontado uns para as cabeças dos outros?
Você sabe quantas escolas daria para construir na periferia com os 20 milhões de reais que o deputado Edmar Moreira (DEM-MG) desviou para construir o seu luxuoso castelo medieval em meio a uma comunidade pobre? Você sabe quantas casas daria para construir com os mais de 300 bilhões de reais que o governo Lula tem dado de mãos beijadas para os donos de bancos? Você não sabe irmão? Tá bom então, você não se importa com política né?
Mas, você sabe de onde vêm as drogas e as armas que entope com ódio o sentimento da periferia? Você tá ligado que quando a polícia invade a favela e mata um negro a mídia logo noticia que era traficante, mesmo sabendo que traficante de luxo não mora em rua com esgoto a céu aberto, nem enfrenta polícia, na verdade eles compram a polícia, o parlamento e, infelizmente, a consciência de nosso povo. Ele mora em bairro de boy por que ele boy e não favelado!!!
Você sabia que os bancos dos Estados Unidos lavam por ano mais de 400 bilhões de dólares tudo proveniente do narcotráfico. Ah, agora você sacou né sangue bom? É isso mesmo, quem financia a “guerra interna” em nossas comunidades são eles com o consentimento do nosso governo. O mesmo país que obriga o nosso governo a ocupar a periferia com força militar é o mesmo que joga as drogas e armas que alimenta o ódio cego de irmão contra irmão.

PERIFERIA, PARE, RESPIRE POR ALGUNS SEGUNDOS (G.O.G)

Pelo fim da “guerra interna” nós do Quilombo Urbano propomos um pacto de paz entre todas as gangues, galeras e bondes de todas as comunidades pobres deste país. Nossa declaração de guerra é contra os ricos, é por educação, saúde, cultura e emprego. Vamos reduzir a zero à contagem de corpos sem vida no chão da periferia. Vamos multiplicar por mil o sorriso de felicidade da mãe que vê seu filho resgatado do crime. O desafio está lançado pra quem é guerreiro de verdade.
1- Exigimos a eliminação gradual do sistema prisional que não ressocializa pobre e nem condena rico, na verdade só serve para alimentar a indústria do crime aumentando o sofrimento da periferia e o lucro das empresas de segurança privada.
2- Para cada cela fechada uma escola construída. Para cada pavilhão extinto uma faculdade aberta, para cada presídio desativado uma universidade inaugurada.
3- Que a polícia se retire imediatamente das periferias e vá para as fronteiras do país, para os aeroportos, para os portos e para os bairros nobres estourar com as mansões e os miolos de quem realmente envenena e promove a guerra entre o nosso povo.
4- Pela formação de conselhos populares de segurança pública que possibilite a própria comunidade a resolver democraticamente os conflitos de seus moradores.
5- Por um plano emergencial de obras públicas em todos os bairros de periferia com vista a gerar emprego e renda e combater o crime em suas raízes sociais.
6- Pelo fim dos assaltos na periferia. Nossos inimigos são outros. Violência Zero na periferia.
7- Pelo fim do pagamento da divida interna e externa, que esse dinheiro, que é nosso dinheiro seja investido em políticas sociais na periferia.

NEM GUERRA ENTRE AS GANGUES, NEM PAZ ENTRE AS CLASSES.

MOVIMENTO HIP HOP ORGANIZADO DO MARANHÃO “QUILOMBO URBANO”
20 anos de Correria, 20 anos de Periferia!

sexta-feira, 27 de março de 2009

DE SARNEY A JACKSON: MUITOS GERÔS SE FORAM NA PERIFERIA

Meu coração também chorou, farda azul matou Gerô/ de Sarney a Jackson vejo que a paz não brotou/ (Gíria Vermelha).

No dia 22 de março de 2007 aconteceu um dos mais chocantes crimes de racismo da história do Brasil. Nesse dia mais de meia dúzia de policiais militares e civis lincharam o artista Jeremias Pereira da Silva, o “Gerô”. O crime aconteceu à luz do dia na frente de dezenas de pessoas. A via sacra de Gerô, como ficou conhecido o fato, iniciou na ponte José Sarney, passando pelo terminal da Integração da Praia Grande encerrando no 2º Distrito Policial, aonde o mesmo chegou já quase sem vida. Nesse agonizante percurso Gerô teve suas costelas quebradas, os pulmões perfurados, os rins dilacerados, os ossos do crânio afundados além de várias escoriações por todo o corpo. Depois de Gerô tivemos os assassinatos do professor Flávio, do jovem Fernando do Jardim Tropical, de Carlos Negão do Laborarte e o espancamento de quase uma dezena de militantes do Quilombo Urbano, todos praticados por policiais. A barbaridade do caso Gerô e de tantos outros cometidos pela polícia de Jackson Lago, lembra os anos de chumbo em que a oligarquia Sarney esteve no governo. Lembra as carnificinas praticadas na região tocantina pelo Bando Bel, a operação Tigre de João Alberto, que em apenas três meses de governo mandou eliminar mais de 100 pessoas pobres e negras. Lembra também o terror praticado pelo Bando do delegado Luís Moura que com a anuência do governo banhava as periferias com sangue negro. O caso Gerô não pode ser esquecido de nossas memórias por que a polícia desse estado e deste país é constantemente educada e orientada para não esquecer de reprimir e eliminar gente pobre e de pele negra. Na atual crise os capitalistas brasileiros já desempregaram quase um milhão de trabalhadores e o governo Lula mandou aprovar o maior orçamento para as forças repressivas do Brasil desde a ditadura militar. Desemprego e repressão são o que eles têm a oferecer, principalmente para o povo negro. Gerô é um exemplo que temos para dizer que nem Roseana Sarney e nem Jackson Lago servem aos trabalhadores. Ambos saquearam os cofres públicos, ambos deram as costas ao povo pobre, ambos massacram gente negra. Em memória de Gerô devemos ocupar ruas, praças e fábricas para dizer não a Roseana, não a Jackson, não a Lula, isso se não quisermos continuar presenciando tantos outros “gerôs” das periferias tendo suas vidas interrompidas pelo braço de chumbo do Estado burguês.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

POLÍCIA MILITAR AGRIDE NOVAMENTE MEMBROS DO QUILOMBO URBANO


Na madrugada de sábado para domingo dois membros do Quilombo Urbano, Paulo e Gustavo, foram espancados e detidos por policias militares no Bairro da Cidade Olímpica. O motivo como sempre foi de desacato à autoridade, pelo simples fato de se negarem a ir para suas casas tal como exigiam alguns policias em uma viatura. Lembrando que os mesmos estavam conversando na esquina da rua onde residem. Lá se encontrava também a mãe das duas vítimas. Em decorrência da negativa foi acionada uma van descaracterizada com cerca de sete policiais, possivelmente do Serviço Velado, que os espancaram brutalmente. Paulo foi agredido principalmente nas pernas e nas costas, já Gustavo apanhou na região pulmonar, no pé e na cabeça, ambos agredidos por cacetetes. Paulo quase teve o joelho e as mãos quebradas, enquanto Gustavo ficou com escoriações horríveis por todo o corpo e com hematomas na cabeça . Com esse caso sobe para sete o número de militantes do Quilombo Urbano vítimas de agressões policiais em pouco mais de dois anos, sem contar que alguns foram agredidos e detidos por mais de uma vez. Tal como nos outros casos, são os policiais que estão nos processando. precisamos dar uma resposta imediata a esse processo de criminalização da pobreza e da juventude negra que tem sido levado a cabo pelo Estado policial de Jackson Lago que mantém a mesma política repressiva que foi estruturada durante as décadas de domínio da oligarquia Sarney no estado do Maranhão.